quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Bens materiais e imateriais: Cosme e Damião.

Festejos de Cosme e Damião, via de regra, combinam duas grandes modalidades de celebração difundidas no Brasil a partir das associações entre as práticas do candomblé, do catolicismo e da umbanda: o costume baiano de ofertar o caruru e a tradição carioca de distribuir saquinhos de doces. 

As comidas, sejam elas doces ou salgadas, são elementos fundamentais das sociabilidades festivas. Por isso, nas celebrações de Cosme e Damião, o caruru e os doces representam mais do que especificidades: são elementos que nos ensinam sobre os diferentes contextos culturais em que os santos são festejados no Brasil. Dar um caruru para os santos é mais do que preparar um prato à base de quiabo e dendê. Essa atitude representa organizar uma festa em um espaço doméstico ou religioso, onde também são servidos xinxim de galinha, farofa de dendê, abará, acarajé, vatapá etc., além de doces, geralmente de fabricação artesanal. 

Há, nessa tradição, muitas cantigas de samba de roda em louvação aos santos, vistos como meninos. As crianças são as protagonistas do caruru e sete delas são convidadas a se sentar em círculo no chão e comer com as mãos aquela comida sagrada. Os adultos também participam. Importante: quem encontrar em seu prato um quiabo inteiro deverá ser o próximo anfitrião da festa. 

As baianas que migraram para o Rio de Janeiro no final do século XIX levaram não apenas os doces dos seus tabuleiros para o Sudeste, mas também a tradição de ofertar tais comidas com o caruru, em homenagem aos santos gêmeos. Na então capital do país, os doces assumiram o protagonismo da festa à medida que a umbanda se popularizou. No caso das Ibejadas, cultuadas pelos umbandistas, são as Mariazinhas, os Pedrinhos e as Rosinhas, entidades brasileiras, que preferem os doces ao caruru. Estabeleceu-se, assim, uma relação entre o paladar das guloseimas e a doçura sagrada das Ibejadas: a entrega de doces fortalece o valor moral associado à infância. Depois, essas guloseimas se industrializaram e sua oferta se popularizou no Rio de Janeiro e em outras cidades brasileiras, assumindo uma configuração moderna: a distribuição em saquinhos, uma prática adequada à rotina da vida urbana.

Oferecer doces nos festejos de Cosme e Damião promove uma grande brincadeira por ruas, casas e templos, que são tomados por crianças em busca das prendas. Os devotos costumam distribuir saquinhos de doces estampados com a imagem dos santos no portão de casa, em praças, em frente ou dentro de igrejas e em centros e terreiros de matrizes africanas, que podem oferecer tanto os doces quanto o caruru não só às crianças, mas a toda a vizinhança. Além de saquinhos preenchidos com guloseimas industrializadas e doces caseiros, como pé de moleque, doce de abóbora e doce de batata-doce, a garotada ainda ganha brinquedos de presente. Os santos também são celebrados com o preparo de uma mesa com bolos e doces servidos em pratinhos, como em festas infantis de aniversário. 






REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

LODY, Raul. Santo também come. Rio de Janeiro: Pallas, 2006.

MOURÃO, Tadeu. De médicos a meninos: vitalidade gemelar na escultura doméstica popular dos santos Cosme e Damião no Brasil. 2015. Tese (Doutorado em Arte e Cultura Contemporânea) – Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2015.

POEL, Francisco van der. Dicionário da religiosidade popular. Curitiba: Nossa Cultura, 2013.

PRANDI, Reginaldo. Mitologia dos orixás. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

VALERI, Valério. Festa. In: Enciclopédia Einaudi, v. 30: religião-rito. Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1994. p. 402-414.

VAREZZE, Jacopo de. Legenda áurea: vidas de santos. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

De médicos a crianças: Cosme, Damião e Doum.

A tradição católica nos conta que os gêmeos Cosme e Damião viveram na região da Turquia entre o século III(3). Estes eram médicos que não cobravam os cuidados que ofertavam aos doentes, e por terem suas vidas marcadas por curas milagrosas dos enfermos passaram a ser cultuados como santos na Europa, especialmente, por associações médicas que os tinham como patronos. No Brasil, o culto aos santos gêmeos foi associado as tradições de matrizes africanas, trazidas pelos escravizados, destacando-se a associação dos gêmeos e os ibejis (orixás gêmeos). Entre os Iorubás, nativos da região da Nigéria e do Benin, o índice de natalidade de gêmeos é alto. Eles chamam o primeiro dos irmãos de Táíwe o segundo de Kéhìndé. 


No entanto, apesar de ter nascido primeiro, Táíwò é considerado o mais novo, aquele que veio provar o mundo a mando do seu irmão gêmeo Kéhìndé, esse mais velho, mais esperto, é avisado pelo choro do irmão sobre a segurança de vir ao mundo. Com isso, nessa tradição, espera-se que a Ibeji, a mãe dos gêmeos, tenha uma outra gestação para reequilibrar a ordem natural abalada pelo nascimento gemelar. Ao novo filho, cabe o papel de apaziguar a dupla de irmãos, recebe o nome de Idowu (Doúm), ele herda dos irmãos, o gênio arteiro. E ainda, seguindo nos trilhos da tradição Iorubá, o quarto filho é chamado de Álàbá se for menina, e Ìdògbé se for menino. 

Ainda sobre a tradição Iorubá, uma criança que nasce no parto empelicado. Ou seja, com a parte da bolsa amniótica cobrindo sua cabeça e rosto como um véu, é chamada de Tàlábí. Assim, esse processo de articulação a partir da associação com os Ibejis, a função e a imagem de Cosme e Damião foram redefinidas. Logo, os santos passaram a estar ligados a infância, sendo considerados protetores das crianças. Ou seja, de médicos da tradição católica tornaram-se meninos na cultura Iorubá. 


         

Nas representações católicas oficiais, os santos Cosme e Damião aparecem com vestimentas romanas nas cores verde e vermelha com detalhes dourados. Eles seguram a palma do martírio em uma das mãos e uma caixa de instrumentos médicos na outra. Essas características estão presentes na Arte do Barroco, um movimento artístico muito presente no período colonial brasileiro e foi utilizado como uma ferramenta para barrar o avanço do protestantismo na colônia portuguesa. 


            


Já na iconografia popular difundida pela tradição Iorubá, as roupas apresentam o tom na cor azul e rosa claro, e suas feições se tornam infantis e um personagem infantil é acrescentado, como uma miniatura dos gêmeos, posicionado entre eles, onde em representações no passado, poderia haver uma mesa para práticas médicas. Com isso, eles se tornam três irmãos, Cosme, Damião e Doum. Enquanto os gêmeos apresentam serenidade por serem mais velhos, e ainda, são possuidores da áurea de doutores. O irmão mais novo sempre brinca e trás consigo uma incontida energia infantil, também retratada nas cantigas de umbanda. 

"Cosme e Damião cadê Doum?

Doum foi passear no cavalo de Ogum" 


Ainda nas associações das tradições católicas e Iorubás, juntaram-se a Cosme, Damião e Doum, mais quatro irmãos, Álàbá e Tálàbí, duas crianças especiais de acordo com os Iorubás. E Crispim e Crispiniano, irmãos romanos, que são venerados como padroeiros dos sapateiros, curtidores e trabalhadores do couro, segundo o cristianismo. Assim, formou-se um grupo de sete crianças que fundamenta os festejos populares de Cosme e Damião. Logo, a devoção sincrética aos santos Cosme, Damião e Doum torna-se assim elemento fundamental para o ciclo de festejos das crianças no Brasil. 


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Câmara. Dicionário do folclore brasileiro. 10. ed. Rio de Janeiro: Ediouro, 1999.

CAVALCANTI, Maria Laura Cavalcanti. As grandes festas. In: SOUZA, Márcio de; WEFFORT, Francisco (org.). Um olhar sobre a cultura brasileira. Rio de Janeiro: Funarte/Ministério da Cultura, 1998. p. 293-311.

FREYRE, Gilberto. Açúcar: uma sociologia do doce, com receitas de bolos e doces do Nordeste do Brasil. 5. ed. rev. São Paulo: Global, 2007 [1939].

LIMA, Vivaldo da Costa. Cosme e Damião: o culto dos santos gêmeos no Brasil e na África. Salvador: Corrupio, 2004.

LODY, Raul. Santo também come. Rio de Janeiro: Pallas, 2006.

MENEZES, Renata de Castro; FREITAS, Morena B. M. de; BÁRTOLO, Lucas (org). Doces santos: devoções a Cosme e Damião. Rio de Janeiro: Museu Nacional, 2020. (Série Livros digitais, 21)

ICONOGRAFIA 

https://www.instagram.com/luizaguedes.ilustra?igsh=Zms5bDUxYXpiemg0 - IBEJI