A tradição católica nos conta que os gêmeos Cosme e Damião viveram na região da Turquia entre o século III(3). Estes eram médicos que não cobravam os cuidados que ofertavam aos doentes, e por terem suas vidas marcadas por curas milagrosas dos enfermos passaram a ser cultuados como santos na Europa, especialmente, por associações médicas que os tinham como patronos. No Brasil, o culto aos santos gêmeos foi associado as tradições de matrizes africanas, trazidas pelos escravizados, destacando-se a associação dos gêmeos e os ibejis (orixás gêmeos). Entre os Iorubás, nativos da região da Nigéria e do Benin, o índice de natalidade de gêmeos é alto. Eles chamam o primeiro dos irmãos de Táíwe o segundo de Kéhìndé.
No entanto, apesar de ter nascido primeiro, Táíwò é considerado o mais novo, aquele que veio provar o mundo a mando do seu irmão gêmeo Kéhìndé, esse mais velho, mais esperto, é avisado pelo choro do irmão sobre a segurança de vir ao mundo. Com isso, nessa tradição, espera-se que a Ibeji, a mãe dos gêmeos, tenha uma outra gestação para reequilibrar a ordem natural abalada pelo nascimento gemelar. Ao novo filho, cabe o papel de apaziguar a dupla de irmãos, recebe o nome de Idowu (Doúm), ele herda dos irmãos, o gênio arteiro. E ainda, seguindo nos trilhos da tradição Iorubá, o quarto filho é chamado de Álàbá se for menina, e Ìdògbé se for menino.
Ainda sobre a tradição Iorubá, uma criança que nasce no parto empelicado. Ou seja, com a parte da bolsa amniótica cobrindo sua cabeça e rosto como um véu, é chamada de Tàlábí. Assim, esse processo de articulação a partir da associação com os Ibejis, a função e a imagem de Cosme e Damião foram redefinidas. Logo, os santos passaram a estar ligados a infância, sendo considerados protetores das crianças. Ou seja, de médicos da tradição católica tornaram-se meninos na cultura Iorubá.
Nas representações católicas oficiais, os santos Cosme e Damião aparecem com vestimentas romanas nas cores verde e vermelha com detalhes dourados. Eles seguram a palma do martírio em uma das mãos e uma caixa de instrumentos médicos na outra. Essas características estão presentes na Arte do Barroco, um movimento artístico muito presente no período colonial brasileiro e foi utilizado como uma ferramenta para barrar o avanço do protestantismo na colônia portuguesa.
Já na iconografia popular difundida pela tradição Iorubá, as roupas apresentam o tom na cor azul e rosa claro, e suas feições se tornam infantis e um personagem infantil é acrescentado, como uma miniatura dos gêmeos, posicionado entre eles, onde em representações no passado, poderia haver uma mesa para práticas médicas. Com isso, eles se tornam três irmãos, Cosme, Damião e Doum. Enquanto os gêmeos apresentam serenidade por serem mais velhos, e ainda, são possuidores da áurea de doutores. O irmão mais novo sempre brinca e trás consigo uma incontida energia infantil, também retratada nas cantigas de umbanda.
"Cosme e Damião cadê Doum?
Doum foi passear no cavalo de Ogum"
Ainda nas associações das tradições católicas e Iorubás, juntaram-se a Cosme, Damião e Doum, mais quatro irmãos, Álàbá e Tálàbí, duas crianças especiais de acordo com os Iorubás. E Crispim e Crispiniano, irmãos romanos, que são venerados como padroeiros dos sapateiros, curtidores e trabalhadores do couro, segundo o cristianismo. Assim, formou-se um grupo de sete crianças que fundamenta os festejos populares de Cosme e Damião. Logo, a devoção sincrética aos santos Cosme, Damião e Doum torna-se assim elemento fundamental para o ciclo de festejos das crianças no Brasil.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Câmara. Dicionário do folclore brasileiro. 10. ed. Rio de Janeiro: Ediouro, 1999.
CAVALCANTI, Maria Laura Cavalcanti. As grandes festas. In: SOUZA, Márcio de; WEFFORT, Francisco (org.). Um olhar sobre a cultura brasileira. Rio de Janeiro: Funarte/Ministério da Cultura, 1998. p. 293-311.
FREYRE, Gilberto. Açúcar: uma sociologia do doce, com receitas de bolos e doces do Nordeste do Brasil. 5. ed. rev. São Paulo: Global, 2007 [1939].
LIMA, Vivaldo da Costa. Cosme e Damião: o culto dos santos gêmeos no Brasil e na África. Salvador: Corrupio, 2004.
LODY, Raul. Santo também come. Rio de Janeiro: Pallas, 2006.
ICONOGRAFIA
https://www.instagram.com/luizaguedes.ilustra?igsh=Zms5bDUxYXpiemg0 - IBEJI



Nenhum comentário:
Postar um comentário