Quando se fala em Decolonialidade é fundamental entender o que foi e o que ainda é a Colonização. Embora o Período Colonial formal tenha terminado, as suas estruturas continuam imperando de forma simbólica, econômica, epistêmica, e institucional.
Segundo a Doutora e Arquiteta Cláudia Sales a continuidade da Colonização está presente em várias áreas, basta analisar as duas alegorias que a Arquiteta expôs, e que foram publicadas em 1602, no livro Iconologia, do escritor italiano Cesare Ripa, considerada uma das obras mais relevantes do início do Período Moderno (Renascimento e Barroco). O escritor italiano mostra como foi retratado o continente europeu, e como o mesmo propôs uma alegoria para representar a América.
Imagem 2 - América
O que é possível traduzir a partir da observação das duas alegorias citadas acima? A Colonização não se limitou à ocupação territorial, mas ao apagamento de cultura, a imposição de uma única religião e língua, e ainda, fez valer a estética europeia como o modo de vida e única forma de conhecer o mundo. Por conseguinte, a mesma lógica apresentada por Cesare Ripa é reutilizada pelo racismo estrutural, patriarcado, pela elitização dos saberes e marginalização de pobres e populações não brancas para explicar a continuidade da Colonização. Isso serve para corroborar a citação de Nego Bispo, "Colonizar é adestrar!" Ou seja, colonizar significa silenciar memórias e deslegitimar experiências locais.
Assim, o campo do conhecimento também sofreu com esse processo de Colonização baseado no modelo europeu, ignorando outras formas de criar, de construir e até viver. Com isso, o Desing Moderno que conhecemos hoje, segundo a Arquiteta Cláudia Sales, surgiu no contexto da Revolução Industrial europeia vinculado na produção em série e na racionalidade técnica. Logo, a formação dos primeiros cursos de Design, como a Bauhaus na Alemanha, foi criada a partir de um ideal de progresso vinculado à estética moderna.
No entanto, a constituição histórica do Design também implicou na exclusão de manifestações locais importantes, como saberes artesanais populares, indígenas, africanos, femininos e periféricos foram desvalorizados ou apropriados sem reconhecimento. Assim o Design se consolidou como um local eurocêntrico, masculino, branco e urbano, que se baseava na homogeneização e na negação da diferença.
Esse modelo de Design exportado como referência universal se tornou parâmetros para formação de escolas e políticas públicas para diversas partes do mundo, em especial, para a América Latina. No Brasil, a consolidação dos cursos de Design seguiu majoritariamente essa cartilha eurocêntrica, importando bibliografias estrangeiras sem diálogos com as peculiaridades e contextos locais.
Como consequência, o Campo do Design reduziu a categoria de artesanato, produções sofisticadas de periferias urbanas, de comunidades indígenas, quilombolas e tradições culturais enraizadas no território brasileiro. Além disso, Cláudia Sales diz que o processo de profissionalização de Design se deu através de uma lógica que restringiu o acesso a formação universitária mantendo o Campo elitizado e cada vez mais distante das práticas cotidianas da maioria da população.
Logo, se faz necessário questionar essa História, para assim compreender que essa prática colonizador/colonizado foi construída baseada no silenciamento de outras Histórias de Desing, que reforçou a ideia de construir para os outros sem respeitar o espaço e as particularidades de outros, reforçando as desigualdades ao invés de repará-las. Analisando as informações supracitadas, é possível concluir que a Colonialidade não chegou ao fim com o processo de independência na América Latina. Pois, ela se manteve através de uma estrutura global epistemológica, econômica e cultural que continua hierarquizando vidas e conhecimento.
Walter Mignolo, filósofo argentino, propõe uma opção Decolonial, a partir de um gesto político de ruptura com o pensamento ocidental de Design baseado na ideia universal eurocêntrica, que ao longo da História vem silenciando experiências negras, indígenas e periféricas e impondo modelos únicos de belezas.
Já o pensador quilombola Nego Bispo traz uma perspectiva radicalmente inspiradora, porque para ele a Decolonialidade não é um conceito acadêmico, mas uma prática de enfrentamento cotidiano. Bispo afirma que a Colonialidade serve para suprimir memórias e modos de vida e propõe o seguinte, ao invés de usar termos como epistemologia, aplique "saberes" e "vivências", onde esses não separam o "saber" da "experiência".
Dessa forma, o quilombola Bispo convida o Designer a aprender com as práticas dos territórios, como fez o Designer baiano J Cunha através da sua linguagem gráfica utilizadas como identidades visuais nos blocos afros de Salvador, como Ilê Aiyê, Olodum e Malê Debalê, é um gesto continuo de resistência simbólica e de reafirmação da negritude como centro criativo e não como margem daquilo que durante muito tempo foi imposto como padrão de cultura e hábitos baseado no América do Norte/Europeu Ocidental. Pois só assim é possível promover a justiça social, cultural e ambiental.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ALMEIDA, Silvio. Racismo estrutural. São Paulo: Pólen, 2019.FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. Salvador: EDUFBA, 2008.
HORA, Lua; FORASTEIRA. Pessoa caminhando por escadaria grafitada em comunidade. 2025.
HOOKS, Bell. Ensinando a transgredir: a educação como prática da liberdade. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2013.
MIGNOLO, Walter D.; WALSH, Catherine. Pensamento decolonial: práticas e perspectivas insurgentes. São Paulo: Autêntica, 2018.
QUIJANO, Aníbal. Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina. In: Lander, Edgardo (org.). A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais. Buenos Aires: CLACSO, 2005.
RIBEIRO, Djamila. O que é lugar de fala? Belo Horizonte: Letramento, 2017.











