Festejos de Cosme e Damião, via de regra, combinam duas grandes modalidades de celebração difundidas no Brasil a partir das associações entre as práticas do candomblé, do catolicismo e da umbanda: o costume baiano de ofertar o caruru e a tradição carioca de distribuir saquinhos de doces.
As comidas, sejam elas doces ou salgadas, são elementos fundamentais das sociabilidades festivas. Por isso, nas celebrações de Cosme e Damião, o caruru e os doces representam mais do que especificidades: são elementos que nos ensinam sobre os diferentes contextos culturais em que os santos são festejados no Brasil. Dar um caruru para os santos é mais do que preparar um prato à base de quiabo e dendê. Essa atitude representa organizar uma festa em um espaço doméstico ou religioso, onde também são servidos xinxim de galinha, farofa de dendê, abará, acarajé, vatapá etc., além de doces, geralmente de fabricação artesanal.
Há, nessa tradição, muitas cantigas de samba de roda em louvação aos santos, vistos como meninos. As crianças são as protagonistas do caruru e sete delas são convidadas a se sentar em círculo no chão e comer com as mãos aquela comida sagrada. Os adultos também participam. Importante: quem encontrar em seu prato um quiabo inteiro deverá ser o próximo anfitrião da festa.
As baianas que migraram para o Rio de Janeiro no final do século XIX levaram não apenas os doces dos seus tabuleiros para o Sudeste, mas também a tradição de ofertar tais comidas com o caruru, em homenagem aos santos gêmeos. Na então capital do país, os doces assumiram o protagonismo da festa à medida que a umbanda se popularizou. No caso das Ibejadas, cultuadas pelos umbandistas, são as Mariazinhas, os Pedrinhos e as Rosinhas, entidades brasileiras, que preferem os doces ao caruru. Estabeleceu-se, assim, uma relação entre o paladar das guloseimas e a doçura sagrada das Ibejadas: a entrega de doces fortalece o valor moral associado à infância. Depois, essas guloseimas se industrializaram e sua oferta se popularizou no Rio de Janeiro e em outras cidades brasileiras, assumindo uma configuração moderna: a distribuição em saquinhos, uma prática adequada à rotina da vida urbana.
Oferecer doces nos festejos de Cosme e Damião promove uma grande brincadeira por ruas, casas e templos, que são tomados por crianças em busca das prendas. Os devotos costumam distribuir saquinhos de doces estampados com a imagem dos santos no portão de casa, em praças, em frente ou dentro de igrejas e em centros e terreiros de matrizes africanas, que podem oferecer tanto os doces quanto o caruru não só às crianças, mas a toda a vizinhança. Além de saquinhos preenchidos com guloseimas industrializadas e doces caseiros, como pé de moleque, doce de abóbora e doce de batata-doce, a garotada ainda ganha brinquedos de presente. Os santos também são celebrados com o preparo de uma mesa com bolos e doces servidos em pratinhos, como em festas infantis de aniversário.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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