terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Design Decolonial e o modelo eurocêntrico.

Quando se fala em Decolonialidade é fundamental entender o que foi e o que ainda é a Colonização. Embora o Período Colonial formal tenha terminado, as suas estruturas continuam imperando de forma simbólica, econômica, epistêmica, e institucional. 

Segundo a Doutora e Arquiteta Cláudia Sales a continuidade da Colonização está presente em várias áreas, basta analisar as duas alegorias que a Arquiteta expôs, e que foram publicadas em 1602, no livro Iconologia, do escritor italiano Cesare Ripa, considerada uma das obras mais relevantes do início do Período Moderno (Renascimento e Barroco). O escritor italiano mostra como foi retratado o continente europeu, e como o mesmo propôs uma alegoria para representar a América. 

Imagem 1 - Europa 


Imagem 2 - América


O que é possível traduzir a partir da observação das duas alegorias citadas acima? A Colonização não se limitou à ocupação territorial, mas ao apagamento de cultura, a imposição de uma única religião e língua, e ainda, fez valer a estética europeia como o modo de vida e única forma de conhecer o mundo. Por conseguinte, a mesma lógica apresentada por Cesare Ripa é reutilizada pelo racismo estrutural, patriarcado, pela elitização dos saberes e marginalização de pobres e populações não brancas para explicar a continuidade da Colonização. Isso serve para corroborar a citação de Nego Bispo, "Colonizar é adestrar!" Ou seja, colonizar significa silenciar memórias e deslegitimar experiências locais. 

Assim, o campo do conhecimento também sofreu com esse processo de Colonização baseado no modelo europeu, ignorando outras formas de criar, de construir e até viver. Com isso, o Desing Moderno que conhecemos hoje, segundo a Arquiteta Cláudia Sales, surgiu no contexto da Revolução Industrial europeia vinculado na produção em série e na racionalidade técnica. Logo, a formação dos primeiros cursos de Design, como a Bauhaus na Alemanha, foi criada a partir de um ideal de progresso vinculado à estética moderna. 

No entanto, a constituição histórica do Design também implicou na exclusão de manifestações locais importantes, como saberes artesanais populares, indígenas, africanos, femininos e periféricos foram desvalorizados ou apropriados sem reconhecimento. Assim o Design se consolidou como um local eurocêntrico, masculino, branco e urbano, que se baseava na homogeneização e na negação da diferença. 

Esse modelo de Design exportado como referência universal se tornou parâmetros para formação de escolas e políticas públicas para diversas partes do mundo, em especial, para a América Latina. No Brasil, a consolidação dos cursos de Design seguiu majoritariamente essa cartilha eurocêntrica, importando bibliografias estrangeiras sem diálogos com as peculiaridades e contextos locais. 

Como consequência, o Campo do Design reduziu a categoria de artesanato, produções sofisticadas de periferias urbanas, de comunidades indígenas, quilombolas e tradições culturais enraizadas no território brasileiro. Além disso, Cláudia Sales diz que o processo de profissionalização de Design se deu através de uma lógica que restringiu o acesso a formação universitária mantendo o Campo elitizado e cada vez mais distante das práticas cotidianas da maioria da população. 

Logo, se faz necessário questionar essa História, para assim compreender que essa prática colonizador/colonizado foi construída baseada no silenciamento de outras Histórias de Desing, que reforçou a ideia de construir para os outros sem respeitar o espaço e as particularidades de outros, reforçando as desigualdades ao invés de repará-las. Analisando as informações supracitadas, é possível concluir que a Colonialidade não chegou ao fim com o processo de independência na América Latina. Pois, ela se manteve através de uma estrutura global epistemológica, econômica e cultural que continua hierarquizando vidas e conhecimento.

Walter Mignolo, filósofo argentino, propõe uma opção Decolonial, a partir de um gesto político de ruptura com o pensamento ocidental de Design baseado na ideia universal eurocêntrica, que ao longo da História vem silenciando experiências negras, indígenas e periféricas e impondo modelos únicos de belezas. 

Já o pensador quilombola Nego Bispo traz uma perspectiva radicalmente inspiradora, porque para ele a Decolonialidade não é um conceito acadêmico, mas uma prática de enfrentamento cotidiano. Bispo afirma que a Colonialidade serve para suprimir memórias e modos de vida e propõe o seguinte, ao invés de usar termos como epistemologia, aplique "saberes" e "vivências", onde esses não separam o "saber" da "experiência". 

Dessa forma, o quilombola Bispo convida o Designer a aprender com as práticas dos territórios, como fez o Designer baiano J Cunha através da sua linguagem gráfica utilizadas como identidades visuais nos blocos afros de Salvador, como Ilê Aiyê, Olodum e Malê Debalê, é um gesto continuo de resistência simbólica e de reafirmação da negritude como centro criativo e não como margem daquilo que durante muito tempo foi imposto como padrão de cultura e hábitos baseado no América do Norte/Europeu Ocidental. Pois só assim é possível promover a justiça social, cultural e ambiental.







REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


ALMEIDA, Silvio. Racismo estrutural. São Paulo: Pólen, 2019.FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. Salvador: EDUFBA, 2008.

HORA, Lua; FORASTEIRA. Pessoa caminhando por escadaria grafitada em comunidade. 2025.

HOOKS, Bell. Ensinando a transgredir: a educação como prática da liberdade. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2013.

MIGNOLO, Walter D.; WALSH, Catherine. Pensamento decolonial: práticas e perspectivas insurgentes. São Paulo: Autêntica, 2018.

QUIJANO, Aníbal. Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina. In: Lander, Edgardo (org.). A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais. Buenos Aires: CLACSO, 2005.

RIBEIRO, Djamila. O que é lugar de fala? Belo Horizonte: Letramento, 2017.


domingo, 18 de janeiro de 2026

Reantropofagia da Cultura Ocidental.

Denilson Baniwa, artista visual, publicitário e defensor dos direitos indígenas, busca através da sua origem indígena, de suas práticas de assimilação de conhecimento de outros povos, características marcantes dos povos originários Baniwa, e ainda, como a sua relação com o mundo acadêmico, pode devorar a Cultura Ocidental a partir do pensamento de Mário de Andrade, Oswaldo de Andrade e outros em relação a Antropofagia Baniwa.

Segundo Denilson, o mundo Baniwa e as batalhas entre os povos originários, servem para desenvolver uma nova interpretação do Kunhambebe (líder do povo Tamoio que lutou contra a ocupação portuguesa e contra os indígenas aliados a França). Ou seja, o artista visual acredita que sem a interferência do colonizador português e a vasta produção acadêmica do dominador é possível fazer uma Reantropofagia da chegada dos europeus à América Portuguesa (Brasil).

Mártires indígenas

“A história é construída por criações de mitos e heróis nacionais que são símbolos de um país que apaga suas diversidades. É mais fácil dominar quando o povo tem somente uma única identidade. Para estes fake-heróis são levantados monumentos e impressos retratos em livros escolares que ensinam que devemos ser gratos a eles que fizeram um país livre de selvageria e paganismo. As datas comemorativas reforçam a importância desses mártires e heróis que 'lutaram e deram a vida pelo Brasil'.

Assim, seguindo os conceitos dos antigos Baniwa, dos Tupinambá, um simples pedaço de osso do inimigo indígena, do português ou francês, além de servir como uma lembrança daquela batalha, também é uma forma de registar o quão aquele indivíduo era forte. Diferenciando assim, daquilo que foi disseminado durante séculos, sobre a cultura indígena e a Antropofagia praticada de acordo com a interpretação Ocidental, onde o indígena devorava o seu inimigo para saciar a fome ou para a realização de sacrifícios apenas. No entanto, as batalhas entre os povos originários e os europeus, a resistência de Kunhambebe ao invasor não está vinculada apenas na instância física, mas é também numa vigorosa batalha simbólica, e ainda, serve para expor um legado, um vestígio histórico material para as próximas gerações, seja para os Baniwa, para as outras nações indígenas, e até para a sociedade acadêmica e brasileira como um todo.

Com isso, a Reantropofagia é voltar a uma espécie de ritual Baniwa, de que é possível retirar partes ou pensamentos das interpretações eurocêntricas, para construir a sua própria narrativa e discurso.

Logo, Denilson Baniwa através do seu filme Tamuia (vem do tupi e significa "avós" ou "os mais velhos"), expõe no excerto da carta de Kunhambebe ao seu filho, o quanto é possível entender que nem tudo está ligado a experiência tátil, aquilo que se pode tocar quando está vivo, mas sim ao pensamento sobre aquela vivência. 

"Já tentaram me calar muitas vezes, de tantas maneiras que não consigo mais diferenciar o que é físico ou psicológico.

Já tentaram me silenciar várias vezes, nem sei se foi antes ou depois que os alienígenas (europeus - franceses e portugueses) chegaram nesse mundo." 

Ou seja, analisando o excerto da carta de Kunhambebe ao seu filho, é possível compreender a diferença entre a morte eurocêntrica que representa o fim, para a morte no mundo Baniwa que é apenas um processo de transição. Pois, a morte não vai apagar aquilo que foi produzido, enquanto o indivíduo esteve vivo. Seja desde uma simples ferramenta construída, uma arte pintada a um pensamento/ensinamento desenvolvido. Por conseguinte, é possível corroborar essa ideia quando utilizamos a iconografia de Jean-Baptiste Debret para compreender a escravidão urbana desenvolvida nas principais cidades brasileiras, ou os textos de Machado de Assis, que não está mais aqui, porém consegue se comunicar com o mundo atual através da sua obra.

     
                                                  Jean-Batiste Debret

Com isso é de extrema importância buscar leitura/conhecimento em autores, cineastas e artistas visuais não só naqueles já consagrados, mas também naqueles que dialogam com o mundo atual, para assim nos permitir refletir, e consequentemente assimilar aquilo que foge do sendo comum. Pois, assim é possível fazer a sua própria Reantropofagia diariamente. 



FONTES BIBLIOGRÁFICA 

ANDRADE, Oswald de. Manifesto Antropófago. Revista de Antropofagia, São Paulo, ano 1, n. 1, maio 1928.

ANDRADE, Mário de. Macunaíma: o herói sem nenhum caráter. 30. ed. Rio de Janeiro: Livraria Agir Editora, 1993.

ICONOGRAFIA 

Mártires indígenas, 2020. Denilson Baniwa 

Praça Quinze, com o chafariz, século XIX, retratada por Jean-Baptiste Debret 


quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

A negritude e a musicalidade no Brasil.

A década de 1970 é emblemática e fundamental não só para o movimento negro contemporâneo, mas também para a grande força das práticas de negritude, ligadas a uma série de acontecimentos e proposições importantes que surgiam em torno das questões raciais no Brasil. E isso em plena Ditadura Militar (1964-1985). Assim, em 1° de novembro de 1974, funda-se em Salvador o primeiro bloco afro do Brasil, o Ilê Aiyê, ao qual se seguiram muitos outros. Por meio dos tambores, o Ilê Aiyê inaugura um movimento negro contemporâneo na Bahia, associando acentos rítmicos e temáticas ligadas ao continente africano e movimentos e criações afro-diaspóricos.



No mesmo ano, o lançamento de Alma no olho inaugura o cinema negro no Brasil. Produzido por Zózimo Bulbul (1937-2013), então conhecido por ter participado como ator do Cinema Novo, o curta-metragem é uma colagem de imagens produzidas em estúdio com câmera parada. Contra um fundo infinito branco, destaca-se o corpo negro de Bulbul, que unicamente com gestos e expressões faciais reflete sobre a história e a identidade negras no Brasil.

Por conseguinte, duvidando de que um negro pudesse produzir filme tão sofisticado, censores da ditadura levam Bulbul para depor. Pressionado, ele inventa haver feito o filme sob ordens de Vinícius de Moraes (1913-1980), que sendo diplomata era intocável pelo regime.


A efervescência cultural afro-brasileira é influenciada pelo contexto internacional. O movimento Black Power que inspira o surgimento do bloco afro baiano, inicialmente denominado Poder Negro, mas rebatizado Ilê Aiyê (“mundo negro”, em línguas iorubás) por temer a perseguição dos militares.

A música negra estadunidense também influencia artistas e grupos brasileiros que, já nos anos 1960, passam a tratar da questão racial de modo mais explícito. É o caso de Tony Tornado (1930), Gerson King Combo (1943-2020), Wilson Simonal (1938-2000), Tim Maia (1942-1998), Cassiano Hyldon (1951), Os Tincoãs, entre outros. 

A partir dos anos 1970, acentuam-se as influências musicais vindas da África, com o lançamento de álbuns como África Brasil (1976), de Jorge Ben (1942), e Refavela (1977), de Gilberto Gil (1942). O compositor baiano participa do Festival Mundial de Arte e Cultura Negra e Africana, na Nigéria, onde conhece Fela Kuti, precursor do afrobeat. 

O reconhecimento, pioneiro no mundo, da Independência de Angola pelo Brasil, em 1975, e a posse do primeiro embaixador nigeriano no país, no ano seguinte, reforçam as relações políticas e culturais brasileiras com o continente africano.

A negritude musical da Bahia

Para além do movimento negro internacional, o Ilê Aiyê é influenciado por vivências negras afro-brasileiras de longa data, a exemplo os terreiros de candomblé e dos quilombos. Outra referência importante para os blocos afro são os afoxés, manifestações de Ijexá de rua que surgiram na Bahia entre o final do século XIX e primeira metade do XX, a exemplo dos Filhos de Gandhy, criado em 1949.

Os anos 1960 são marcados pelo surgimento dos blocos de indígenas, que tocam samba no Carnaval. Apesar da referência figurativa a indígenas americanos, eles são essenciais para o direcionamento negro adquirido pelos movimentos musicais da Bahia ligados ao Carnaval, nos anos 1970.

No final dos anos 1980, a expressão Axé Music é cunhada pelo jornalista musical Hagamenon Brito para se referir, pejorativamente, aos grupos que faziam “batuque” no Carnaval de Salvador. Os alvos da crítica, que vinham obtendo sucesso ao mesclar sonoridades dos blocos afro a influências da música pop, assumem o nome para si, dando origem a um dos maiores fenômenos fonográficos brasileiros do final do século XX. 

Curiosamente, o movimento Axé Music nomeado com um termo iorubá e que se vale de referenciais negros fundamentais tem início com uma canção racista, “Nega do cabelo duro”, de Luiz Caldas e Paulinho Camafeu.

Igualmente intrigante é o fato de o movimento ter atingido dimensões nacionais com a canção “O canto da cidade”, em que uma artista branca de Salvador – a cidade mais negra do mundo fora da África – cantava: “A cor dessa cidade sou eu.”

Tais paradoxos revelam a continuidade das desigualdades raciais no âmbito do mercado fonográfico e o acirramento das disputas em torno de uma música marcada por sua constituição negra.

Poéticas negras contemporâneas

Contemporaneamente, as expressões musicais negras no Brasil são marcadas por múltiplas percepções das negritudes, concebidas no plural.

Assim, um de seus marcos fundamentais é o lançamento do álbum Sobrevivendo no inferno, em 1997, pelo grupo Racionais MC’s. Integrando o movimento hip-hop, que ganha força no Brasil nas periferias das grandes cidades, os rappers dos Racionais desenvolvem uma consciência de suas corporeidades negras a partir de vivências singulares, não só do ponto de vista racial, mas também social.



Outras realidades vividas por negras e negros no Brasil, marcadas por questões não só de classe, mas também de gênero e sexualidade, emergem igualmente na música brasileira contemporânea, numa perspectiva da interseccionalidade.

A reconfiguração do mercado musical brasileiro, com a queda das majors e o surgimento de novas editoras e selos que valorizam as experiências e os corpos negros, permite a ascensão de artistas como Emicida (1985), Linn da Quebrada(1990), Tássia Reis (1989), Luedji Luna (1987), Bia Ferreira (1993), MC Soffia (2004), Liniker (1995), Ellen Oléria (1982), Xênia França (1986), Tiganá Santana (1982), entre tantos outros. 



Artistas como Liniker e Linn da Quebrada questionam as noções de masculino e feminino por meio de seus corpos negros críticos e políticos.

A reconfiguração do mercado musical brasileiro também reposiciona figuras consagradas como Elza Soares (1930-2022), que em A mulher do fim do mundo se liga à negritude jovem, e Virgínia Rodrigues (1964), que em 2015 lançou um álbum com compositoras e compositores negros do século XXI.






REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 

CANTO do povo de um lugar. Direção: Chico Kertész. Brasil, 2017, 107 min.

COSTA, Luís Paulo de Souza Pinto. O Influxo Religioso na Obra do Grupo Musical Os Tincoãs. Dissertação (Mestrado em História), Universidade Federal da Bahia, 2017.

EMICIDA. Pra quem já mordeu um cachorro por comida, até que eu cheguei longe. Antologia inspirada no universo da mixtape. São Paulo: LiteraRua, 2021.

RACIONAIS MC’S. Sobrevivendo no inferno. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

Origens do conceito internacional de negritude.

O conceito de negritude foi criado no final dos anos 1930 pelos escritores Aimé Césaire (1913-2008), da Martinica, Léon-Gontran Damas (1912-1978), da Guiana Francesa, e Léopold Sédar Senghor (1906-2001), do Senegal. Os três se conheceram na França, onde realizavam seus estudos. Desse encontro, surgiu uma corrente literária que buscava valorizar a cultura negra das populações africanas e afrodescendentes, opondo-se à imagem colonialista e pejorativa associada aos negros.

O termo surge, portanto, num contexto diaspórico, fora do continente africano. Trata-se de uma construção teórica e artística em torno de corporeidades, cosmologias, práticas e pensares negros.

E ainda, vale ressaltar que a negritude não é essencializada por esses autores. Ou seja, para eles não existe um “ser negro” que anteceda a existência das pessoas negras. Segundo Césaire, a negritude é uma resposta de entes históricos à história, e surge com a Revolução Haitiana. 

A Negritude no Brasil 

Segundo a teórica pensadora Ligia Ferreira (2006), o termo “negridade” já era usado por autores ligados à Frente Negra Brasileira em 1931. O sentimento de pertencimento a uma cultura negra no Brasil antecede, portanto, a internacionalização do conceito afro-antilhano de negritude. Antes da fundação da FNB, jornalistas e pensadores negros brasileiros divulgavam suas ideias em periódicos voltados aos “interesses dos homens de cor”, como O Clarim d’ Alvorada, criado em São Paulo em 1924.


Na década de 1940, a noção de negritude, já internacionalizada, desponta em movimentos como o Teatro Experimental do Negro (TEN). Fundado por Abdias Nascimento (1914-2011) em 1944, no Rio de Janeiro, o TEN busca denunciar a segregação racial no teatro brasileiro e recuperar a herança cultural africana.

Nos anos 1950, a noção de negritude ganhou corpo também na literatura, por meio das poéticas de escritores como Oswaldo de Camargo (1936) e Carlos de Assunção (1927).

No campo da música, a cantora lírica, compositora e pesquisadora Elsie Houston (1902-1943) leva pela primeira vez para a música erudita elementos musicais oriundos de religiões de matrizes africanas. 

Houston, filha de pai estadunidense e mãe brasileira, aperfeiçoa seus estudos de canto em Paris, onde se casa em 1927 com o poeta Benjamim Péret. Circula entre as vanguardas literárias francesas, especialmente o grupo surrealista de André Breton, que julgava Césaire o maior poeta de seu tempo. Entre 1929 e 1931, Houston e Péret moram no Brasil. Viajam pelo Norte e Nordeste do país, onde ela realiza importante pesquisa sobre cultos religiosos afro-brasileiros. Os cantos coletados foram reunidos no livro Chants populares du Brésil (Cantos populares do Brasil), lançado na França em 1930, e incorporados a suas performances e gravações. De volta à Europa, leva para suas apresentações referências a lugares culturais de experiências afro-brasileiras. Migrou para Nova York em 1937, onde comete um suposto suicídio em 1943. Mas ainda que não tenha incorporado a ideia de negritude em seu discurso, Houston desempenha um papel fundamental e inovador, ao levar aos palcos e discos certo lugar de pertencimento negro e afro-brasileiro. 


A negritude musical dos anos 1940

Em 1942, é criada no Rio de Janeiro a Orquestra Afro-Brasileira de Abigail Moura (1904-1970), dedicada à música brasileira de matrizes africanas. Misturando instrumentos de sopro, vozes (coro e solistas) e percussão afro-brasileira, a OAB busca difundir a arte negra por meio de concertos e emissões radiofônicas. A OAB leva para o campo da orquestração o que Elsie Houston havia feito no cancioneiro. Sob a batuta de Abigail Moura, também grava dois discos. 

Os anos 1940 também foram marcados pela emergência de Dorival Caymmi (1914-2008), artista que migra nos anos 1930 para o Rio de Janeiro, levando para a música gravada referências importantes do universo afro-baiano. Seu samba “O que é que a baiana tem?”, gravado por Carmen Miranda (1909-1955) e o Grupo Bando da Lua em 1940, descreve uma mulher ligada ao universo afro-baiano, com seu torço (turbante) de seda, seu pano da costa (xale ritual do candomblé), sua bata rendada etc. Em “A preta do acarajé”, Caymmi reproduz o cântico de uma vendedora que oferece iguarias afro-baianas. Associado a Oyá (orixá do universo yorubantu, mais conhecida como Iansã), o acarajé só pode ser vendido pelas filhas dessa entidade. Caymmi também inaugura o gênero da canção praieira, igualmente ligado a um universo cosmológico negro-africano e afro-diaspórico, com referências a Iemanjá e a pescadores que, via de regra, seriam negros ou mestiços.


Clementina de Jesus e a emergência da vocalidade negra na fonografia


Em 1966, aos 65 anos, a cantora carioca Clementina de Jesus (1902-1987) lança seu primeiro disco-solo, levando para a música gravada um repertório afro-carioca ligado ao samba, jongo e curimba. A força da vocalidade negra que ela inaugura na indústria fonográfica pode ser escutada em gravações como “Cangoma me chamou”, cântico de domínio público que faz referência ao anúncio da abolição da escravidão. 

“Tava durumindo, Cangoma me chamou/

Disse levanta povo, cativeiro já acabou”

(DE JESUS, 1966)

Importante ressaltar a centralidade do tambor (cangoma, derivado de ngoma), tanto no discurso verbal quanto na rítmica da canção. No mesmo ano do lançamento do álbum Clementina de Jesus, Baden Powell (1937-2000) e Vinicius de Moraes (1913-1980) gravam Os afro-sambas, com canções que fazem referências ao candomblé.


Vale lembrar que todas essas experiências, levadas para o disco e para o palco a partir dos anos 1930, já são vivenciadas desde o final do século XIX nas práticas musicais das comunidades afro-brasileiras, a exemplo das rodas de choro e de samba.





REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 


MOURA, Abigail. Orquestra Afro-Brasileira. Projeto integrado à exposição Negras Memórias, Memórias de Negros. São Paulo: Atração Fonográfica, 2003. CD + Livreto (32 páginas).


COELHO, Heron (org.). Rainha Quelé: Clementina de Jesus. Valença: Editora Valença S. A., 2001.


DORIVANDO Saravá. O preto que virou mar. Direção: De Henrique Dantas. Documentário. Brasil, 2020, 88 min.


HOUSTON, Elsie. A feminilidade do Canto. Projeto integrado à exposição Negras Memórias, Memórias de Negros. São Paulo: Atração 

Fonográfica, 2003. CD + Livreto (32 páginas).


O Piano e a vida urbana nas cidades brasileiras.

Hoje em dia, escutar um piano tocando música ao vivo não é uma experiência habitual. Porém, entre meados do século XIX e no início do XX, esse instrumento foi o principal veículo de difusão musical das grandes cidades brasileiras.

Assim, em 1856, o escritor e jornalista Manuel de Araújo Porto Alegre (1806-1879) afirma que o gosto pela música havia se espalhado de tal forma pelo Rio de Janeiro, que a então capital do Império do Brasil poderia se chamar “a cidade dos pianos” (PORTO ALEGRE, 1856, p. 358-9).

Duas décadas mais tarde, a ideia é retomada numa crônica do jornalista e dramaturgo França Júnior (1838-1890), mas para se referir a São Paulo. Nascido no Rio, ele morou na capital paulista entre 1858 e 1862, enquanto estudava Direito. Ao revisitar a cidade em 1875, ele se espanta com o que ouve:

Quem te viu e que te vê, meu dileto S. Paulo!

Outrora cantavas ao luar, na doce língua de seus avós, ao som do violão plangente! [...].

Hoje já não se ouve mais a viola do caipira a soluçar tristes endechas.

Teus pianos tornaram-se uma epidemia como a bexiga, e executam, no rigor do termo, músicas de Bellini, Flotow, Verdi, Meyerbeer, Halévy, o vasto repertório enfim de todas as escolas.

És uma verdadeira Pianópolis!”


(FRANÇA JÚNIOR, 1875, Apud ARAUJO:1991)


O piano foi se consolidando como instrumento popular, mas suas origens datam de dois séculos antes a essa explosão de fama. Isso, graças à economia cafeeira, São Paulo então se urbaniza rapidamente. Nesse contexto, a viola caipira e o canto ao violão, símbolos de um passado bucólico, são contrapostos pelo saudoso cronista ao moderno piano e seu repertório europeu. 

Embora chegado ao Brasil ainda no final do século XVIII, o piano só se difunde por aqui após a vinda da família real, em 1808. A transformação do Rio de Janeiro em nova sede da Corte estimula a importação do instrumento, cuja presença nos espaços públicos e privados torna-se símbolo do desenvolvimento urbano e da europeização. Inicialmente muito caro, o piano se restringe às residências abastadas. Em meados do século XIX, porém, a produção industrial do instrumento o torna mais barato e acessível. Vendas parceladas, aluguéis e revendas possibilitam que ele chegue a grupos sociais menos favorecidos.

Com isso, a disseminação do instrumento por diversos espaços urbanos leva seu repertório para um público cada vez mais amplo. Numa época em que o único meio de ouvir música em casa era tocando um instrumento, os pianos também adentram o espaço doméstico, tanto das classes abastadas quanto das camadas médias, onde são tocados principalmente por mulheres.

Mas o instrumento também chega aos domicílios mais humildes. Em suas memórias, o jornalista Luís Edmundo (1878-1961) afirma que algumas casas miseráveis do Morro de Santo Antônio, no Rio, possuem velhos pianos que, “antes de serem atirados ao fogo, ainda se deixam martelar pela arte abastarda de pioneiros de ouvido” (EDMUNDO, 2003, p. 127). Os “pianeiros” a que se refere Luiz Edmundo são pianistas autodidatas, muitos deles responsáveis pela difusão musical nos espaços populares de divertimento. Esses, Influenciados pelas manifestações musicais afro-brasileiras que se ouviam nas ruas das cidades brasileiras, eles criam uma forma singular de tocar, com um “balanço” próprio, abrasileirando o repertório pianístico europeu que circulava por meio das partituras.

A nova música surgida com esses instrumentistas (e com outros que mesclavam os gêneros europeus à rítmica afro-brasileira, como os chorões) inspira compositores brasileiros a criar uma música erudita com caráter nacional, que não fosse mera cópia da europeia. É o caso de “Galhofeira”, de Alberto Nepomuceno, que alia técnica e forma eruditas à brejeirice popular.

Ernesto Nazareth (1863-1934) foi um dos maiores responsáveis pelo abrasileiramento do piano. Considerado erudito demais pelos populares, e popular demais pelos eruditos, ele atuou como um mediador entre os dois mundos. Seu tango “Odeon”, cujo título remete ao cinema onde ele trabalha, faz referência ao universo dos choros (a melodia da primeira parte, na mão esquerda, imitando as “baixarias” do violão), ao mesmo tempo em que explora com maestria os recursos pianísticos.

Logo, o piano desempenhou um papel central na vida musical da Belle Époque brasileira. Pois, não só ocupou diversos espaços urbanos, públicos e privados, mas também promoveu a integração entre a música popular e erudita, ajudando a criar um repertório identificado como nacional.






REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 


ARAUJO, Vitor Gabriel de. A crítica musical na imprensa paulista: 1854-1875. 1991. Dissertação (Mestrado em História) - Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 1991.


MACHADO, Cacá.O enigma do homem célebre: ambição e vocação de Ernesto Nazareth. São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2007.


ROSA, Robervaldo L. Como é bom tocar um instrumento: pianeiros na cena urbana brasileira. Goiânia: Cânone editorial, 2014.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

O apagão histórico da participação das mulheres na Belle Époque brasileira.

As mulheres não só participaram como também contribuíram, na Belle Époque, no início do século XX, para quebrar diversos preconceitos e discriminações presentes no mundo da música, principalmente na cidade do Rio de Janeiro. No manual de história da música é possível compreender as narrativas hegemônicas em torno dessa arte. 

Escritos por autores homens tão diversos entre si quanto Mário de Andrade (1893-1945) e Luiz Heitor Corrêa de Azevedo (1905-1992), os manuais históricos raramente registram a presença feminina na cena musical brasileira nas primeiras décadas do novecentos. Uma exceção se dá com a compositora e maestrina Chiquinha Gonzaga (1847-1935), embora também ela seja preterida em vários livros, mais interessados na música “erudita”. No entanto, numa sociedade de proeminente patriarcalismo, a profissão musical não é entendida como apropriada às mulheres. Isso não quer dizer, contudo, que elas estavam apartadas da música. Afinal, das moças e senhoras da “boa sociedade” – das classes mais altas – exigem-se habilidades específicas para uso doméstico e entre o círculo familiar expandido: falar francês, saber cantar e dançar, bordar e tocar piano. (FREIRE, PORTELA, 2010, p. 67). 

Com isso, apesar da enorme popularidade das canções de Chiquinha Gonzaga, seu nome é raramente citado nos manuais de história da música publicados no Brasil na primeira metade do século XX, visto estarem esses livros ainda muito atentos à música erudita e não a gêneros como a polca e o maxixe. Isso porque, os protocolos aburguesados da vida nas grandes cidades na virada do século XIX para o XX obviamente não restringem a efetiva participação das mulheres na música – ainda que uma participação, muitas vezes, um tanto restrita aos bastidores. Assim, entre a relevância feminina na música e a vida familiar, Corrêa de Azevedo acentua, em seu livro, o papel decisivo de figuras femininas para a consolidação da carreira de compositores de renome, como Leopoldo Miguez, cujo casamento com a pianista Alice Dantas, mulher dotada de enorme cultura, constitui acontecimento decisivo para a sua carreira. Ou de Alberto Nepomuceno (1864-1915), casado com a pianista norueguesa Walborg Bang, de quem foi colega na Europa. Ou de Adelina Alambary Luz, mãe de Glauco Velásquez (1884-1914), mulher de grande inteligência e sensibilidade. Porém, também transparece o papel do cuidado, social e historicamente projetado nelas: quer dizer, o de proporcionar um ambiente para que homens (maridos, filhos) realizem suas grandes obras, como citou Lima Barreto, no clássico Triste fim de Policarpo Quaresma, de 1915, anotando a angústia da personagem D. Ismênia.
A história se desenrola no Rio dos primeiros anos da República, ainda no século XIX: Desde menina, ouvia a mamãe dizer: ‘Aprenda a fazer isso, porque quando você se casar...’ ou senão: ‘Você precisa aprender a pregar botões, porque quando você se casar...’ A todo instante e a toda hora, lá vinha aquele – ‘porque, quando você se casar...’ – e a menina foi se convencendo de que toda existência só tendia para o casamento. A instrução, as satisfações íntimas, a alegria, tudo isso era inútil; a vida se resumia numa coisa: casar. 

Outro exemplo de anulação, foi a dedicação “aos cuidados domésticos” que dragou a carreira de musicistas de reputada e ascendente projeção, como a Carmita Campos, “a violinista mais glorificada pelo público e pela crítica” de sua época. E da violinista Noêmia de Oliveira, que se retira da arte, em pleno triunfo musical, para se casar. 

O violinista, italiano Vincenzo Cernicchiaro, no livro Storia della musica nel Brasile, dai tempi coloniali sino ai nostri giorni (1926). Ou seja, no seu manual de história da música apresenta um ponto fora da curva, legando à posteridade o nome e a importância de dezenas de mulheres musicistas no Brasil Imperial e Republicano, como Matilde Canizares e Clotilde Maragliano. Também ressalta pianistas, entre as quais Antonietta Rudge (1885-1974) e Guiomar Novaes (1894-1979) e compositoras, com destaque para Maria Virgínia Leão Veloso (1895-1921), a Nininha Veloso. Apesar de todo apagão histórico, é possível destacar a atuação das mulheres na música, na área da Educação, que contou com professoras em escolas oficiais, como o Instituto Nacional de Música, no Rio, em aulas particulares e em escolas privadas. Nesta esfera, destaca-se a Escola de Música Figueiredo Roxo, aberta em 1914 e comandada por quatro mulheres pianistas – as irmãs Suzana, Helena e Silvia de Figueiredo, e Celina Roxo.

Há ainda outros grupos de mulheres muito importantes para a consolidação da música popular, sendo um dos mais destacados a das tias baianas, cuja figura mais emblemática é a doceira conhecida como Tia Ciata, na Pequena África da zona portuária carioca, abordada na última aula. Tais mulheres, ao emprestarem suas casas e seus terreiros para festas, ativamente fermentam, com o aporte de batuques do candomblé, a consolidação do samba urbano como um gênero em si. 

Por conseguinte, se o período da Belle Époque brasileira contou com tantas mulheres fazendo música no Brasil urbano, por que ouvimos tão poucos relatos a respeito delas?
A resposta pode estar na desconsideração por certos tipos de atividades e fazeres artísticos e musicais, em particular as que se afastam do modelo cristalizado da composição/execução de óperas, onde, por razões socioculturais e socioeconômicas a participação feminina foi muito restrita. 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: 

BARRETO, Lima. Triste Fim De Policarpo Quaresma. São Paulo: Scipione. 1994

BONAVIDES, Marcelo. Compositoras brasileiras (1868-1958). Estrelas que nunca se apagam (site), 12 mar. 2021. Disponível em: https://www.marcelobonavides.com/2021/03/compositoras-brasileiras-1868-1958.html. Acesso em: 31 maio 2022.

FREIRE, Vanda Lima Bellard; PORTELA, Angela Celis H. Mulheres pianistas e compositoras, em salões e teatros do Rio de Janeiro (1870-1930). Cuadernos de Música, Artes Visuales y Artes Escénicas. V.5. n.2. p. Bogotá. 2010, pp. 61-78. Disponível em: https://revistas.javeriana.edu.co/index.php/cma/article/view/1959/1253. Acesso em: 31 maio 2022.

SILVA, Agata Christie Rodrigues

segunda-feira, 8 de abril de 2024

A (des)Inteligência artificial em Gaza!

Imagine um futuro sem privacidade, onde todos os cidadãos são fichados e monitorados. O estado militarizado hi-tech de Israel controla tudo e todos, pronto para prender ou assassinar quem julgar necessário. No entanto, reportagens publicadas pelo Intercept Brasil sobre tecnologias e equipamentos de vigilância têm sido comprados e utilizados por polícias e autoridades de investigação. Logo, numa sociedade punitivista, com valores “bandido bom, é bandido morto” é difícil mostrar as pessoas porque esse tipo de investimento em tecnologia pode ser usado para violar seus próprios direitos. Mas uma reportagem bombástica publicada nesta semana sobre como ferramentas de inteligência artificial são usadas para massacrar palestinos em Gaza nos ajuda a entender o tamanho desse estrago.

Israel é um pólo de desenvolvimento de tecnologias de defesa, e vende muito para vários países do mundo. O “First Mile” que rastreia a localização de alvos, foi usado no escândalo de espionagem da Abin (A investigação da Policia Federal monitorou um jantar entre os ex-deputados Rodrigo Maia, na época presidente da Câmara, e Joice Hasselmann com um advogado e Antonio Rueda, dirigente do PSL, que promoveu um racha no partido que fez Bolsonaro sair do PSL. Além disso, o Pegasus, que invade dispositivos, são exemplos de tecnologias israelenses de espionagem e vigilância, não foi por acaso, que as vendas de muitos deles por aqui explodiram no governo Bolsonaro.


Sendo assim, sabe-se que Israel tem utilizado inteligência artificial em Gaza, a partir de ferramentas desenvolvidas pelo próprio exército israelense e empresas dirigidas por ex-soldados que, com base nos dados coletados em anos de espionagem, orientam os militares a definirem alvos de acordo com a “possibilidade” de eles serem do Hamas. Logo, baseado em “possibilidades” a IA entende como alvo, seres humanos ou prédios (onde estão seres humanos).


Nesta semana, o Intercept Brasil expôs informações de jornalistas palestinos e israelenses, revelando detalhes de como funciona esse sistema, com declarações de militares, onde Israel usa o monitoramento em massa de reconhecimento facial para juntar um enorme volume de dados sobre os palestinos e, com ajuda de algoritmos, usa esses padrões para tentar definir os alvos em potencial.


“Os humanos muitas vezes serviam apenas como um ‘carimbo’ para as decisões da máquina”, conta uma fonte citada na reportagem.


Segundo o Intercept, o jornal britânico The Guardian, 37 mil alvos foram identificados em Gaza pelas supermáquinas de Israel por um sistema batizado candidamente de Lavender (lavanda).


Os oficiais ouvidos pela reportagem afirmam confiar mais nas máquinas do que em um soldado sob emoção. "A máquina fez aquilo friamente, e tornou muito mais fácil", declarou um deles. "Economizou muito tempo".


Segundo os militares ouvidos, o exército israelense tinha, para alguns tipos de alvos, uma pré-autorização: 15 ou 20 civis podiam morrer por cada militante de baixa patente do Hamas atingido. Já um comandante valeria mais de 100 inocentes.


Esses ataques aos militantes mais desimportantes eram feitos com bombas "bobas", não guiadas, mais baratas e que geram mais mortes colaterais, destruindo casas inteiras e seus ocupantes. "Você não quer gastar bombas caras em pessoas desimportantes", disse um dos militares ouvidos.


Os ataques não aconteciam apenas quando os supostos terroristas estavam em atividade – mas também em suas casas. "É muito mais fácil bombardear uma casa de família. O sistema é feito para procurá-los nestas situações", disse um dos oficiais ao Guardian. Segundo as fontes, havia pressão dos superiores para bombardear mais e mais.


Assim que um alvo era atingido, havia uma fila de 36 mil outros esperando – graças ao sistema de inteligência artificial, que mapeou supostos inimigos automaticamente em escala industrial. Especialistas em conflitos ouvidos pelo Guardian dizem que a técnica pode explicar o absurdo número de civis mortos em Gaza, que já chega a 33 mil.


Seguindo a lógica matemática utilizada pela IA, a decisão de cometer o genocídio foi tomada por humanos, mas a escolha de quais vítimas morrerão hoje é feita pelos robôs. Com isso, Israel está vários passos à frente em relação ao futuro distópico militarizado e assassino, mas não está tão longe de nós assim. Mapear toda uma sociedade para pinçar os indivíduos “potencialmente” problemáticos foi o que Israel fez em Gaza, e é o que governos tecnoautoritários têm feito aqui no Brasil também.


É só você relacionar as guerras que acontecem diariamente nas comunidades das grandes cidades brasileiras, que apresentam um número de “indivíduos potencialmente perigosos”, ignorando a grande massa trabalhadora, que por estar sempre a margem das políticas públicas, torna-se alvo dos projéteis policiais e de criminosos. No entanto, quando algum(a) trabalhador(a) ou criança é alvejada, a morte é justificada com um razo discurso noticiado pela grande mídia da seguinte forma: “mais uma vítima de bala perdida”.


Logo, transformar ferramentas que utilizam Inteligência Artificial sem critérios rigorosos de pesquisa em algo comum, é aceitar a farra da indústria de vigilância que, transformará pessoas em um possível alvo, dando ao robô o poder identificar quem deve ser morto. Assim, seguindo essa lógica e analisando o depoimento da Deputada Renata Souza do PSOL, que pediu para IA gerar um desenho de uma mulher negra em um cenário de favela e a ferramenta gerou uma mulher com uma arma na mão. Nos mostra que, a IA segundo as informações que inseridas nela, a mesma criminaliza moradores de favelas. E ainda, num futuro próximo, essas as pessoas podem ser transformadas em indivíduos “potencialmente perigosos”, justificando assim as mortes que acontecerão num confronto entre policiais e criminosos.