terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Sambando a Ditadura!!!

Fazer cem anos não foi uma tarefa fácil para o Samba, a partir de 1937, a Ditadura do Estado Novo fez a união visceral entre o samba e a malandragem ser interrompida e censurada pelo DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda), passou por um processo de "branqueamento" para ser aceito pelas instituições fonográficas e fora utilizado como ferramenta do governo Vargas para doutrinar os trabalhadores brasileiros. "O amor regenera o malandro" serve de exemplo para expor a utilização do samba como ferramenta de doutrinação.


O amor regenera o malandro
Sou de opinião/ De que todo malandro/ Tem que se regenerar/ Se compenetrar(e ainda mais: breque)/ Que todo mundo deve ter/ O seu trabalho para o amor merecer/
Regenerado/ Ele pensa no amor/ Mas pra merecer carinho/ Tem que ser trabalhador(que horror!: breque)

Porém, por mais ditatorial e supostamente totalitário que seja um regime político, nunca se consegue calar por completo as dissidências e as minorias. O "breque" usado a duas vozes - breque que, neste caso, é anunciador de distanciamento crítico - no samba, colocou por terra toda politicagem do governo Vargas e expôs a quebra da aparente harmonia estabelecida na letra, subvertendo seu conteúdo original a típica malandragem que utilizava todo seu gingado e balanço para "driblar" ou "sambar" a censura e doutrinação do Estado Novo.

Para ratificar o drible a censura o cronista musical do dia-a-dia, Assis Valente se aproveita de um assunto de censo comum de 1940, e faz uma narrativa de um agente recenseador que subiu ao morro e quis saber como é a vida de um casal amigado, "perguntou se meu moreno era decente/ e se era do batente/ ou era da folia". Diante dessa interpelação, a mulher, que se declara "obediente a tudo que é da lei", foi logo se explicando:


O meu moreno é brasileiro/ É fuzileiro/ E é quem sai com a bandeira/ Do seu batalhão.../ A nossa casa não tem nada de grandeza/ Mas vivemos na pobreza/ Sem dever tostão/ Tem um pandeiro, tem cuíca e tamborim/ Um reco-reco, um cavaquinho/ E um violão

Seu "moreno" ao que tudo indica, nem de longe poderia ser catalogado no exército regular de "trabalhadores do Brasil", ele que seria talvez porta-bandeira (ou melhor, mestre-sala) de escola de samba. No barraco em que moravam, faltava tudo - imagem da pobreza que contrasta com a do "Brasil Novo de Getúlio Vargas" vomitada cotidianamente pela propaganda governamental através das ondas de rádio.

O golpe militar de 1964 que derrubou o Presidente João Goulart do poder, fez com que, vários segmentos artísticos se tornassem fortes personagens de luta contra a Ditadura. Por exemplo, o Samba mais uma vez entrou em cena para "driblar" a censura que assolava os artistas e a população brasileira. Um ano após o golpe, o compositor Zé Keti da Portela lançou o samba "Acender as velas" para protestar contra a Ditadura e para relatar o abandono do (des)governo militar para com a população das favelas:


Acender as velas
Acender as velas/ Já é profissão/ Quando não tem samba/ Tem desilusão/ 
É mais um coração/ Que deixa de bater/ Um anjo vai pro céu/ Deus me perdoe, mas vou dizer/ Deus me perdoe, mas vou dizer/ O doutor chegou tarde demais/ Porque no morro não tem automóvel pra subir/ Não tem telefone pra chamar/ E não tem beleza pra se ver/ E a gente morre sem querer morrer/ E a gente morre sem querer morrer


As Escolas de Samba do Salgueiro, Império Serrano e Unidos de Vila Isabel também protestaram contra a Ditadura Militar. Quando o Ato Institucional nº 5 (AI-5), entrou em vigor no governo do presidente militar Arthur Costa e Silva, em 1968, para tolir a liberdade da população brasileira, o Samba por ser uma expressão musical visceral, aquilo que se encontra no íntimo do povo brasileiro, fez o DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) monitorar todos os sambas de enredo. A Escola Império Serrano foi obrigada pelo governo militar a modificar um verso do samba "Heróis da Liberdade" que fazia analogia à luta pela liberdade na Ditadura no ano de 1969 e por possuir uma frase considerada subversiva, reescreveram assim: "É a evolução em sua legítima razão"


"Ao longe soldados e tambores/ Alunos e professores/ Acompanhados de clarim/ Cantavam assim/ Já raiou a liberdade/ A liberdade já raiou/ Essa brisa que a juventude afaga/ Essa chama/ Que ódio não apaga pelo universo/ É a revolução em sua legítima razão" .

Os anos de chumbo (1968-1974) viu surgir na composição de Sérgio Sampaio, "Eu quero botar meu bloco na rua" de 1973, um dos grandes hinos contra a censura e a perseguição do governo Médici, marcado pelo falso "milagre econômico" e pelo chamado "desbunde" da classe média. O cantor e compositor relatou a Zeca Baleiro, em 1989 que, "A grande importância dessa canção é ter sido feita e lançada numa época em que as pessoas estavam muito amordaçadas e bastante medrosas de abrirem a boca para falar qualquer coisa". O verso "(há quem diga) que eu morri de medo quando pau quebrou"  sintetiza de forma clara o sentimento da população brasileira. 

Eu quero botar meu bloco na rua
Há quem diga que eu dormi de touca/ Que eu perdi a boca, que eu fugi da briga/ Que eu caí do galho e que não vi saída/ Que eu morri de medo quando o pau quebrou/ Há quem diga que eu não sei de nada/ Que eu não sou de nada e não peço desculpas/  Que eu não tenho culpa, mas que eu dei bobeira/ E que Durango Kid quase me pegou/ Eu quero é botar meu bloco na rua/ Brincar, botar pra gemer/ Eu quero é botar meu bloco na rua/ Gingar, pra dar e vender/ Eu, por mim, queria isso e aquilo/ Um quilo mais daquilo, um grilo menos disso/ É disso que eu preciso ou não é nada disso/ Eu quero é todo mundo nesse carnaval/ Eu quero é botar meu bloco na rua/ Brincar, botar pra gemer/ Eu quero é botar meu bloco na rua/ Gingar, pra dar e vender

O governo de João Batista Figueiredo, último presidente militar, foi marcado por uma enorme crise econômica, por atentados terroristas realizados pelos militares contra as manifestações públicas descontentes com 21 anos de Ditadura e por um processo lento e gradual de abertura política. A Escola de Samba União da Ilha do Governador em 1978, aproveitou o momento para lançar o Samba Enredo "O Amanhã" e "driblar" a censura com um sentimento de esperança e um futuro melhor. 


O Amanhã
A cigana leu o meu destino/ Eu sonhei/ Bola de cristal, jogo de búzios, cartomante/ Eu sempre perguntei/ O que será o amanhã?/ Como vai ser o meu destino?/ Já desfolhei o mal-me-quer/ Primeiro amor de um menino/ E vai chegando o amanhecer/ Leio a mensagem zodiacal/ E o realejo diz/ Que eu serei feliz/ Como será o amanhã/ Responda quem puder (bis)/ O que irá me acontecer/ O meu destino será como Deus quiser

A Lei de Anistia perdoava todos os acusados de praticar tortura, devolvia os direitos políticos dos exilados e aboliu o sistema político bipartidário (ARENA - transformou-se no PDS; MDB - se tornou o PMDB). A criação de diversos partidos políticos fez o ano de 1982 ficar marcado pelas mudanças políticas, já que, ocorreram eleições diretas para os governos estaduais e demais cargos legislativos. Mediante esse novo quadro político membros da oposição da Câmara dos Deputados tentaram articular um projeto de lei que instituísse o "voto direto" na escolha de um sucessor do presidente João Batista Figueiredo, que anos depois ficou conhecida como a "Emenda Dante de Oliveira". Driblando a censura, nesse mesmo ano, os compositores Didi e Mestrinho criaram o samba "É Hoje". Este samba é um dos mais tocado no carnaval até os dias atuais. E foi estrelado pela Escola de Samba União da Ilha do Governador no carnaval de 1982 exaltando a alegria da possível chegada das "Diretas Já".

É Hoje
A minha alegria atravessou o mar/ E ancorou na passarela/ Fez um desembarque fascinante/ No maior show da Terra/ Será que eu serei o dono desta festa um rei/ No meio de uma gente tão modesta/ Eu vim descendo a serra/ Cheio de euforia para desfilar/ O mundo inteiro espera/ Hoje é dia do riso chorar/ Levei o meu samba/ Pra mãe-de-santo rezar/ Contra o mau olhado/ Carrego o meu Patuá/ Acredito ser o mais valente/ Nesta luta do rochedo com o mar(E com o mar)/ É hoje o dia da alegria e a tristeza/ Nem pode pensar em chegar/ Diga espelho meu/ Se há na avenida/ Alguém mais feliz que eu

Fazer a analogia de um samba ao período abordado como o Estado Novo e a Ditadura Militar, exclusivamente através de sua letra, resulta no rebaixamento da canção, a um simples documento escrito, amesquinhando seu campo de significações. Logo, é preciso ouvir infinitas vezes sua sonoridade para alcançar a  verdadeira interpretação exposta pelo compositor.

A arte musical criada pelos negros com muita genialidade e resistência enfrentou diversos conflitos com instituições fonográficas, políticas e militares para que hoje pudesse expressar suas tradições. A miscigenação de diferentes instrumentos e ritmos fez surgir uma melodia repleta de sangue, muita porrada e suor que, no ano de 2016, tornou-se centenária. Esta musicalidade, ou melhor, esta arte fonográfica, é o Samba, que de cadência em cadência foi sambando(driblando) a Ditadura.

























  • Os personagens da imagem acima retratam Getúlio e o Estado Novo, o Militar e a Ditadura de 1964-1985 e o jogador de futebol representa o malandro do "Samba" driblando os dois regimes ditatoriais para chegar ao centenário e disseminar suas manifestações musicais até hoje. 
  • As luvas com a marca norte-americana expõe a entrada do capital estrangeiro no governo Vargas(1930-1945) e na Ditadura Militar(1964-1985).
  • Os Arqueiros de futebol quando falham, interferem nos resultados de seus times com as derrotas. O goleiro Getúlio representa as falhas políticas, sociais e econômicas do Brasil estado-novista; e o guardião Militar é responsável por 21 anos de repressão política, pelo falso milagre econômico, pelas crises econômicas e suas mazelas que assolam a população brasileira até os dias atuais.



Fontes:

A partitura de “O amor regenera o malandro” contou com edição de A Melodia, Rio de Janeiro, s/d. Mesmo a um autor preocupado com a audição da canção e a apreciação de seus elementos musicais, isso passou despercebido a ponto de ele agrupar a gravação desse samba entre os que engrossavam a corrente estado-novista. V. FURTADO FILHO, João Ernani. Um Brasil brasileiro: música, política, brasilidade, 1930-1945. Tese (Doutorado) – Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, Universidade de São Paulo –, São Paulo, 2004, p. 239. 20 Cf. 

NETO, Lira. Uma História do Samba: as origens.

V. PARANHOS, Adalberto. O Brasil dá samba?: os sambistas e a invenção do samba como “coisa nossa”. In: TORRES, Rodrigo (ed.). Música popular en América Latina. Santiago de Chile: Fondart, 1999.

 Cf. VASCONCELLOS, Gilberto e SUZUKI JR., Matinas. A malandragem e a formação da música popular brasileira. In: FAUSTO, Boris (dir.). História geral da civilização brasileira - III - O Brasil republicano (Economia e cultura – 1930/1964). São Paulo: Difel, 1984, p. 520. 

“Recenseamento” (Assis Valente), Carmen Miranda. 78 rpm, Odeon, g.: 27 set. 1940, l.: dez. 1940, r.: caixa de discos Carmen Miranda, Emi, CD n. 5, 1996. 22 Ou “nós vivemos na fartura”, como canta Ademilde Fonseca, para acentuar o efeito de ironia contido em “Recenseamento”, no LP À la Miranda, Odeon, 1958, r.: fascículo/LP Assis Valente. História da Música Popular Brasileira, São Paulo, Abril Cultural, 1982.

Revista Umdegrau, 1989. (autor: Zeca Baleiro)

Ginzburg é um severo crítico do excessivo apego dos historiadores às fontes escritas como documento, com todas as suas implicações metodológicas. V. GINZBURG, Carlo. O queijo e os vermes: o cotidiano e as ideias de um moleiro perseguido pela Inquisição. São Paulo: Companhia das Letras, 1987, p. 17 e 18.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

A Democracia está em perigo???

No primeiro dia de aula geralmente o professor deseja boas vindas aos alunos, trocam ideias e informações sobre o período de recesso. Em seguida explica como será o ano letivo, expõe o conteúdo programático que será trabalhado em sala de aula e assim segue outras rotinas típicas do cotidiano na relação professor/aluno.

Um aluno argumentou por que o Deputado Jair Bolsonaro é um perigo para a Democracia do Brasil? A pergunta causou certa estranheza, já que era o primeiro dia de aula. Assim, visando não polemizar a questão citada, o professor respondeu da seguinte forma: se você observar o cotidiano de boa parte da juventude que atualmente se interessa por política, a grande maioria apropria-se  das informações das Redes Sociais para compor seus posicionamentos políticos para assim defender aquilo que acredita. Mas devido a falta de interesse pela leitura, essa parcela de jovens eleitores acreditam em tudo que é noticiado nesses veículos de comunicação como uma verdade absoluta. 

O aluno explanou: 

- Não entendi professor?

- O professor respondeu que, o principal erro de alguns jovens, que hoje querem ser politizados é demostrar sem nenhum constrangimento o desinteresse pela informação correta e pelo tempo histórico em que se pode encontrar a raiz de um tema. O assunto noticiado nas Redes Sociais nem sempre possui fontes confiáveis para ser exposto. Porém a falta de leitura faz com que os jovens ignorem a importância de estudar, pesquisar e analisar determinados assuntos  para que realmente sejam noticiados e compartilhados, como, o que está sendo debatido em sala de aula: o fim da democracia ou o perigo da democracia?

O aluno questionou novamente:

- Professor aonde o senhor quer chegar com esse blá blá blá?

O professor respondeu:

- Quando se diz desinteresse pela leitura, pelo passado, o aluno não tem obrigação de se sentir inclinado à disciplina de História,  respondeu o professor. Por exemplo: a grande maioria dos jovens não tem o mínimo interesse em saber como era a infância ou adolescência dos pais? Qual era a brincadeira mais divertida? A escola ou a disciplina em que os pais mais gostavam ou se destacavam? 

- Você já perguntou aos seus pais o que mais eles gostavam de fazer quando tinham dezesseis anos de idade?

A turma ficou em silêncio, olharam uns para os outros e a quietação predominou o ambiente, em seguida o professor proferiu:

- Continuemos, assim partindo do princípio em que, muitos jovens acreditam que o passado é blá blá blá, e outros ainda dizem que "a Ditadura Militar prendeu, assassinou e torturou apenas vagabundos", porque assim leu na Rede Social de X ou de Y. Isso reforça a ideia de que, essa juventude utiliza argumentos disseminados pelas Redes Sociais e acreditam nos mesmos como uma verdade absoluta, ignorando assim, um período de terror para o desenvolvimento social, político e econômico do Brasil. Desacreditando ainda que, a desigualdade social, o abandono das políticas públicas, o êxodo rural dos nordestinos em direção ao Sudeste e Sul do país, o crescimento urbano desordenado, o processo de favelização e o aumento da criminalidade, a construção de vários presídios no fim da década de 1980 e início dos anos 1990, o surgimento de uma grande população carcerária predominante negra e afrodescendente, não possui nenhuma relação com os 21 anos de um regime político autoritário e antidemocrático que assolou o Brasil e que a eleição de um determinado político acabará com as mazelas sociais em que estamos inseridos, como se este candidato fosse o novo messias. 

- O fato de desconstruir um Tempo Histórico, é reflexo do desinteresse de achar que os pais não possuem um passado interessante o suficiente para receber atenção, ou que a disciplina de História é blá blá blá e com isso, a falta de exercício de valorizar a própria história familiar ou anos de pesquisas históricas torna automaticamente qualquer fato do passado irrelevante. O exemplo mais eficaz para isso é ignorar o que os jovens da população italiana e alemã sofreram na Segunda Guerra Mundial, por seguirem e formarem grupos paramilitares(Camisas Negras/Itália e SS/Alemanha) que apoiavam respectivamente as doutrinas de Mussolini e Hitler, em que estes, montavam discursos voltados para esses grupos que apontavam "o diferente - judeu, negro, religioso, estrangeiro etc" como o culpado pelo fracasso econômico e militar alemão e isentavam os verdadeiros causadores do problema - a corrida imperialista por novos mercados consumidores e fornecedores na África, a disputa pelo lucro com a Inglaterra e a França no final do século XIX(19), a derrota na Primeira Guerra Mundial e a condenação no Tratado de Versalhes por ser considerada a única nação culpada pelo primeiro conflito - expondo que o desinteresse pelo fato histórico é um comportamento comum por parte da maioria da juventude desde séculos passados.

- Hoje em dia, os jovens, buscam cada vez menos o convívio com aqueles que são diferentes. Quando uma turma é liberada para o intervalo(recreio) a maioria dos alunos pegam seus "Smartphones" e adentro no seu mundo virtual. Os adolescentes das décadas de 1970,80 e 90, devido a inexistência ou na maioria das vezes, o difícil acesso aos aparelhos eletroeletrônicos - a realidade econômica da maioria das famílias brasileiras nas décadas supracitadas, recebiam salários que mal dava para sobreviver - tornava os dias nas escolas extremamente coletivo, já que, brincadeiras como: pique pega, queimado, pau na lata, pular elástico, futebol e outras, demandavam um número significativo de alunos para serem realizadas. Ou seja, as brincadeiras na escola iniciava a socialização entre pessoas e ambientes diferentes de suas casas e familiares! Logo, o comportamento de parte da juventude atual, elimina o contato com "o diferente". A consequência da idiossincrasia juvenil faz surgir adultos com dificuldade de desenvolver uma relação amistosa numa sociedade cada vez mais "diferente". Porque a falta de amor, respeito e admiração ao próximo são qualidades cada vez mais raras hoje, porém essenciais para o bem comum.

- A falta de segurança, a impunidade, as Leis obsoletas e a corrupção política servem de combustível para políticos oportunistas desenvolverem "discursos agressivos" prometendo o fim dessas mazelas e ainda ganham apoio de boa parte da sociedade acusando o diferente - o imigrante, o retirante, o caipira, o negro, o homossexual - como um erro para a sociedade atual, em que "o diferente" existe apenas para acabar com as oportunidades de emprego, com os princípios da "família tradicional" e exaltam ainda, a "meritocracia" como uma medida necessária para uma população mergulhada na desigualdade social. Tudo isto somado ao mau uso das Redes Sociais, a intolerância religiosa, o racismo e a homofobia servem para alimentar os preconceituosos que, disseminam ideologias de eugenia como o poema de Kipling "O fardo do homem branco". Ou seja, aqueles que se julgam normal realizam a "seleção natural" baseada numa sociedade colonial, regada de machismo e preconceito e visam eliminar "o diferente". Esse tipo de comportamento pode ser comparado com as ideologias do Nazismo que defendia o Arianismo(raça branca e pura), e o Espaço Vital Alemão(um continente só para os alemães), e não é loucura fazer um paralelo com a política da sociedade atual. Parte da população carioca que professa a religião protestante elegeu Marcelo Crivella para o cargo político de prefeito da cidade do Rio de Janeiro, e não apenas demonizou como também acusou e divulgou através das Redes Sociais "o falso" poder do candidato Marcelo Freixo caso fosse eleito, de alterar Leis federais por este apresentar propostas políticas que fugiam do senso comum, e que atendiam os anseios da minoria.



- Seguindo essa colação muitos jovens se apropriam das Redes Sociais e de discursos políticos nacionalistas, conservadores e defensores de torturas para saciar pensamentos violentos e assim expor seus preconceitos publicamente. De acordo com o cientista político Maurício Santoro, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro(UFRJ), a vitória de um candidato presidenciável que trabalha com um discurso tão agressivo como o eleito presidente dos EUA, Donald Trump dá maior voz a esse tipo de pensamento preconceituoso.

      "Quando você tem um presidente eleito com esse discurso, você se sente legitimado a expor sua opinião sobre o assunto por mais preconceituosa que ela seja. Você se sente autorizado a propagar o mal". 

- Nos dias atuais não é mais preciso formar grupos paramilitares e uniformizados como os que existiram na década de 1920 e 30. Por exemplo, no Brasil existiu a Ação Integralista Brasileira (AIB) um movimento político fascista nacionalista e racista, brasileiro criado em 7 de outubro de 1932 para apoiar o (des)governo do Presidente do Getúlio Vargas.



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Logo, a grande maioria dos novos eleitores acreditam que através do voto, o seu candidato pouco atraente às minorias, com discursos considerados xenofóbicos, machistas e racistas ascenderão ao poder e eliminarão a obrigatoriedade do convívio com "os diferentes", e os protegerá de qualquer tipo de descumprimento das Leis caso seja contrariados.



Após alguns minutos de explanação sobre a importância do passado e do voto como ferramenta para exercer o respeito às minorias e evitar grandes erros no convívio social futuramente, um aluno levantou a mão e perguntou:

- Professor, será que o Bolsonaro vai ser eleito presidente em 2018?

O professor respondeu:

- A desvalorização que alguns partidos políticos, veículos de comunicação e segmentos religiosos estão disseminando aos seus seguidores sobre as Ciências Humanas, somado ao desinteresse de boa parte dos jovens em não aprender a importância de valorizar o passado dos próprios familiares, mais a falta de convívio devido as novas tecnologias que ocupam cada vez mais espaço na sociedade, e ainda com o mau uso das mídias e das Redes Sociais para disseminar o ódio, o preconceito racial, a intolerância religiosa em relação aquilo que foge do senso comum e provoca o desrespeito sobre aqueles que são acusados como "os diferentes". Não será surpresa, se um candidato político como o Deputado Jair Bolsonaro for eleito presidente do Brasil. Historicamente a sociedade brasileira sempre buscou o "salvador da pátria". Porque aprender política é trabalhoso, é um processo que requer dedicação e muita pesquisa. Logo, não é interessante, atraente e utópico como os romances e os finais felizes das telenovelas, séries e filmes hollywoodianos. Não é fácil identificar um personagem protagonista, um herói ou heroína na política como os reality shows expõe na visão maniqueísta(o bem x o mal). É difícil torcer para um candidato político nas eleições como  nas partidas de futebol em que, seus torcedores desejam a vitória dos seus respectivos times. 

- Ao analisar a conjuntura política do passado e comparar com a sociedade atual, em que o voto garante o direito de políticos com "discursos agressivos" se tornarem chefes de Estado, como ocorreu com Adolf Hitler na Alemanha em 1933, pelo voto. É possível citar a vitória de Donald Trump nas últimas eleições norte americanas para presidente como um ótimo exemplo de que políticos racistas, machistas e xenófobos ascendem ao poder através da democracia.

- A vitória de Trump recebeu o apoio de um grande número de internautas brasileiros que expuseram em suas Redes Sociais a satisfação com o resultado das eleições presidenciais estadunidense.  Foi possível observar várias postagens: "pelo menos os norte americanos sabem votar, não colocaram uma anta como a Dilma no poder", "Agora vamos eleger o Bolsonaro em 2018 e exterminar os vermelhos", "Os EUA com o Trump no poder vai mostrar ao mundo como lhe dar com os muçulmanos". Ou seja, independente da opção partidária, o desrespeito, o machismo e o racismo, são temas que permanecem fortes e contam com o apoio de boa parte da população para eleger esses tipos de políticos.

- As medidas políticas tomadas por Donald Trump em seus primeiros dias no cargo como presidente expõe exatamente o que foi discursado em sua campanha eleitoral. A cassação dos direitos civis e políticos de cidadãos americanos que professam a religião islâmica. O impedimento à circulação dos islâmicos e de seus familiares nos EUA, por Donald achar que todo muçulmano é "homem bomba". O desejo de construir um muro na fronteira dos EUA com o México. A imposição aos mexicanos em arcar com os gastos da construção do "muro". A nomeação de figuras políticas envolvidas em espionagens e sabotagens envolvendo a Rússia e o atual presidente russo Vladimir Putin com o resultado da última eleição presidencial norte americana. A intenção de nomear o executivo Steve Bannon, antissemita, como estrategista-chefe e conselheiro sênior para governo de Trump, que fez a extrema direita e a direita norte americana festejar a escolha. Essas atitudes servem para reforçar que políticos como Donald Trump após assumir o poder político se afastam cada vez mais da Democracia.



Uma aluna, após ouvir a palavra antissemita, perguntou:

- O que é antissemita professor?

O professor respondeu:

- O Steve Bannon é associado à supremacia branca(é uma forma de forma de racismo centrada na crença e na promoção desta crença, de que os brancos são superiores a pessoas de outras origens raciais e que, portanto, os brancos devem governar politicamente, economicamente e socialmente os não-brancos) e por este personagem cultuar o antissemitismo (aversão aos semitas, corrente ou política adversa aos judeus). e professar à misoginia (ódio ou aversão às mulheres) sua possível nomeação para estrategista-chefe do governo Trump alimentou o desejo de vários racistas, xenófobos e machistas norte americanos expor seus respectivos preconceitos. (imagem no fim do texto)

A aluna replicou:


- Nossa professor, então a democracia é perigosa, porque é através do voto que esses caras chegam no poder!

O professor argumentou: 

- Ignorar o Tempo Histórico, aprender política através das Redes Sociais de usuários descomprometidos com a verdade, se apropriar de "discursos agressivos" e se esconder atrás de candidatos políticos por não ter a coragem de expressar o preconceito e intolerância e depositar nas urnas o ódio para impor interesses políticos, econômicos e religiosos de senso comum sobre "os diferentes" está longe de representar o poder do povo. Ou seja, promover a ascensão de políticos que cultuam o desrespeito, o ódio e o extermínio de minorias através do voto, isto é perigoso. Porém Mariana(aluna), isto não é Democracia!




Fontes:


SALEM, Helena. As tribos do mal: o neonazismo no Brasil e no mundo

SAID, Edward. Orientalismo: a visão do Ocidente pelo Oriente

SCHWARCZ, Lilian Moritz. Espetáculo das raças


VINCENTINO, Cláudio. Mundo atual, o - da guerra fria a nova ordem internacional.

KARNAL, Leandro; FERNANDES, Luis Estevam; MORAIS, Marcus Vinicius de; PURDY, Sean. História dos Estados Unidos: das origens ao século XXI(21).

BUENO, Eduardo. As Veias Abertas da América Latina.

TULCHIN, Joseph S. América Latina X Estados Unidos: uma relação turbulenta.

FAUSTO, Boris. História Concisa do Brasil.

Sites: 

ultimosegundo.ig.com

www.ceert.org.br

Filmes:

Menino 23.

Estive em Lisboa e lembrei de você.

Eu não sou seu Negro.