quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

O Piano e a vida urbana nas cidades brasileiras.

Hoje em dia, escutar um piano tocando música ao vivo não é uma experiência habitual. Porém, entre meados do século XIX e no início do XX, esse instrumento foi o principal veículo de difusão musical das grandes cidades brasileiras.

Assim, em 1856, o escritor e jornalista Manuel de Araújo Porto Alegre (1806-1879) afirma que o gosto pela música havia se espalhado de tal forma pelo Rio de Janeiro, que a então capital do Império do Brasil poderia se chamar “a cidade dos pianos” (PORTO ALEGRE, 1856, p. 358-9).

Duas décadas mais tarde, a ideia é retomada numa crônica do jornalista e dramaturgo França Júnior (1838-1890), mas para se referir a São Paulo. Nascido no Rio, ele morou na capital paulista entre 1858 e 1862, enquanto estudava Direito. Ao revisitar a cidade em 1875, ele se espanta com o que ouve:

Quem te viu e que te vê, meu dileto S. Paulo!

Outrora cantavas ao luar, na doce língua de seus avós, ao som do violão plangente! [...].

Hoje já não se ouve mais a viola do caipira a soluçar tristes endechas.

Teus pianos tornaram-se uma epidemia como a bexiga, e executam, no rigor do termo, músicas de Bellini, Flotow, Verdi, Meyerbeer, Halévy, o vasto repertório enfim de todas as escolas.

És uma verdadeira Pianópolis!”


(FRANÇA JÚNIOR, 1875, Apud ARAUJO:1991)


O piano foi se consolidando como instrumento popular, mas suas origens datam de dois séculos antes a essa explosão de fama. Isso, graças à economia cafeeira, São Paulo então se urbaniza rapidamente. Nesse contexto, a viola caipira e o canto ao violão, símbolos de um passado bucólico, são contrapostos pelo saudoso cronista ao moderno piano e seu repertório europeu. 

Embora chegado ao Brasil ainda no final do século XVIII, o piano só se difunde por aqui após a vinda da família real, em 1808. A transformação do Rio de Janeiro em nova sede da Corte estimula a importação do instrumento, cuja presença nos espaços públicos e privados torna-se símbolo do desenvolvimento urbano e da europeização. Inicialmente muito caro, o piano se restringe às residências abastadas. Em meados do século XIX, porém, a produção industrial do instrumento o torna mais barato e acessível. Vendas parceladas, aluguéis e revendas possibilitam que ele chegue a grupos sociais menos favorecidos.

Com isso, a disseminação do instrumento por diversos espaços urbanos leva seu repertório para um público cada vez mais amplo. Numa época em que o único meio de ouvir música em casa era tocando um instrumento, os pianos também adentram o espaço doméstico, tanto das classes abastadas quanto das camadas médias, onde são tocados principalmente por mulheres.

Mas o instrumento também chega aos domicílios mais humildes. Em suas memórias, o jornalista Luís Edmundo (1878-1961) afirma que algumas casas miseráveis do Morro de Santo Antônio, no Rio, possuem velhos pianos que, “antes de serem atirados ao fogo, ainda se deixam martelar pela arte abastarda de pioneiros de ouvido” (EDMUNDO, 2003, p. 127). Os “pianeiros” a que se refere Luiz Edmundo são pianistas autodidatas, muitos deles responsáveis pela difusão musical nos espaços populares de divertimento. Esses, Influenciados pelas manifestações musicais afro-brasileiras que se ouviam nas ruas das cidades brasileiras, eles criam uma forma singular de tocar, com um “balanço” próprio, abrasileirando o repertório pianístico europeu que circulava por meio das partituras.

A nova música surgida com esses instrumentistas (e com outros que mesclavam os gêneros europeus à rítmica afro-brasileira, como os chorões) inspira compositores brasileiros a criar uma música erudita com caráter nacional, que não fosse mera cópia da europeia. É o caso de “Galhofeira”, de Alberto Nepomuceno, que alia técnica e forma eruditas à brejeirice popular.

Ernesto Nazareth (1863-1934) foi um dos maiores responsáveis pelo abrasileiramento do piano. Considerado erudito demais pelos populares, e popular demais pelos eruditos, ele atuou como um mediador entre os dois mundos. Seu tango “Odeon”, cujo título remete ao cinema onde ele trabalha, faz referência ao universo dos choros (a melodia da primeira parte, na mão esquerda, imitando as “baixarias” do violão), ao mesmo tempo em que explora com maestria os recursos pianísticos.

Logo, o piano desempenhou um papel central na vida musical da Belle Époque brasileira. Pois, não só ocupou diversos espaços urbanos, públicos e privados, mas também promoveu a integração entre a música popular e erudita, ajudando a criar um repertório identificado como nacional.






REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 


ARAUJO, Vitor Gabriel de. A crítica musical na imprensa paulista: 1854-1875. 1991. Dissertação (Mestrado em História) - Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 1991.


MACHADO, Cacá.O enigma do homem célebre: ambição e vocação de Ernesto Nazareth. São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2007.


ROSA, Robervaldo L. Como é bom tocar um instrumento: pianeiros na cena urbana brasileira. Goiânia: Cânone editorial, 2014.

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