A década de 1970 é emblemática e fundamental não só para o movimento negro contemporâneo, mas também para a grande força das práticas de negritude, ligadas a uma série de acontecimentos e proposições importantes que surgiam em torno das questões raciais no Brasil. E isso em plena Ditadura Militar (1964-1985). Assim, em 1° de novembro de 1974, funda-se em Salvador o primeiro bloco afro do Brasil, o Ilê Aiyê, ao qual se seguiram muitos outros. Por meio dos tambores, o Ilê Aiyê inaugura um movimento negro contemporâneo na Bahia, associando acentos rítmicos e temáticas ligadas ao continente africano e movimentos e criações afro-diaspóricos.
No mesmo ano, o lançamento de Alma no olho inaugura o cinema negro no Brasil. Produzido por Zózimo Bulbul (1937-2013), então conhecido por ter participado como ator do Cinema Novo, o curta-metragem é uma colagem de imagens produzidas em estúdio com câmera parada. Contra um fundo infinito branco, destaca-se o corpo negro de Bulbul, que unicamente com gestos e expressões faciais reflete sobre a história e a identidade negras no Brasil.
Por conseguinte, duvidando de que um negro pudesse produzir filme tão sofisticado, censores da ditadura levam Bulbul para depor. Pressionado, ele inventa haver feito o filme sob ordens de Vinícius de Moraes (1913-1980), que sendo diplomata era intocável pelo regime.
A efervescência cultural afro-brasileira é influenciada pelo contexto internacional. O movimento Black Power que inspira o surgimento do bloco afro baiano, inicialmente denominado Poder Negro, mas rebatizado Ilê Aiyê (“mundo negro”, em línguas iorubás) por temer a perseguição dos militares.
A música negra estadunidense também influencia artistas e grupos brasileiros que, já nos anos 1960, passam a tratar da questão racial de modo mais explícito. É o caso de Tony Tornado (1930), Gerson King Combo (1943-2020), Wilson Simonal (1938-2000), Tim Maia (1942-1998), Cassiano Hyldon (1951), Os Tincoãs, entre outros.
A partir dos anos 1970, acentuam-se as influências musicais vindas da África, com o lançamento de álbuns como África Brasil (1976), de Jorge Ben (1942), e Refavela (1977), de Gilberto Gil (1942). O compositor baiano participa do Festival Mundial de Arte e Cultura Negra e Africana, na Nigéria, onde conhece Fela Kuti, precursor do afrobeat.
O reconhecimento, pioneiro no mundo, da Independência de Angola pelo Brasil, em 1975, e a posse do primeiro embaixador nigeriano no país, no ano seguinte, reforçam as relações políticas e culturais brasileiras com o continente africano.
A negritude musical da Bahia
Para além do movimento negro internacional, o Ilê Aiyê é influenciado por vivências negras afro-brasileiras de longa data, a exemplo os terreiros de candomblé e dos quilombos. Outra referência importante para os blocos afro são os afoxés, manifestações de Ijexá de rua que surgiram na Bahia entre o final do século XIX e primeira metade do XX, a exemplo dos Filhos de Gandhy, criado em 1949.
Os anos 1960 são marcados pelo surgimento dos blocos de indígenas, que tocam samba no Carnaval. Apesar da referência figurativa a indígenas americanos, eles são essenciais para o direcionamento negro adquirido pelos movimentos musicais da Bahia ligados ao Carnaval, nos anos 1970.
No final dos anos 1980, a expressão Axé Music é cunhada pelo jornalista musical Hagamenon Brito para se referir, pejorativamente, aos grupos que faziam “batuque” no Carnaval de Salvador. Os alvos da crítica, que vinham obtendo sucesso ao mesclar sonoridades dos blocos afro a influências da música pop, assumem o nome para si, dando origem a um dos maiores fenômenos fonográficos brasileiros do final do século XX.
Curiosamente, o movimento Axé Music nomeado com um termo iorubá e que se vale de referenciais negros fundamentais tem início com uma canção racista, “Nega do cabelo duro”, de Luiz Caldas e Paulinho Camafeu.
Igualmente intrigante é o fato de o movimento ter atingido dimensões nacionais com a canção “O canto da cidade”, em que uma artista branca de Salvador – a cidade mais negra do mundo fora da África – cantava: “A cor dessa cidade sou eu.”
Tais paradoxos revelam a continuidade das desigualdades raciais no âmbito do mercado fonográfico e o acirramento das disputas em torno de uma música marcada por sua constituição negra.
Poéticas negras contemporâneas
Contemporaneamente, as expressões musicais negras no Brasil são marcadas por múltiplas percepções das negritudes, concebidas no plural.
Assim, um de seus marcos fundamentais é o lançamento do álbum Sobrevivendo no inferno, em 1997, pelo grupo Racionais MC’s. Integrando o movimento hip-hop, que ganha força no Brasil nas periferias das grandes cidades, os rappers dos Racionais desenvolvem uma consciência de suas corporeidades negras a partir de vivências singulares, não só do ponto de vista racial, mas também social.
Outras realidades vividas por negras e negros no Brasil, marcadas por questões não só de classe, mas também de gênero e sexualidade, emergem igualmente na música brasileira contemporânea, numa perspectiva da interseccionalidade.
A reconfiguração do mercado musical brasileiro, com a queda das majors e o surgimento de novas editoras e selos que valorizam as experiências e os corpos negros, permite a ascensão de artistas como Emicida (1985), Linn da Quebrada(1990), Tássia Reis (1989), Luedji Luna (1987), Bia Ferreira (1993), MC Soffia (2004), Liniker (1995), Ellen Oléria (1982), Xênia França (1986), Tiganá Santana (1982), entre tantos outros.
Artistas como Liniker e Linn da Quebrada questionam as noções de masculino e feminino por meio de seus corpos negros críticos e políticos.
A reconfiguração do mercado musical brasileiro também reposiciona figuras consagradas como Elza Soares (1930-2022), que em A mulher do fim do mundo se liga à negritude jovem, e Virgínia Rodrigues (1964), que em 2015 lançou um álbum com compositoras e compositores negros do século XXI.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CANTO do povo de um lugar. Direção: Chico Kertész. Brasil, 2017, 107 min.
COSTA, Luís Paulo de Souza Pinto. O Influxo Religioso na Obra do Grupo Musical Os Tincoãs. Dissertação (Mestrado em História), Universidade Federal da Bahia, 2017.
EMICIDA. Pra quem já mordeu um cachorro por comida, até que eu cheguei longe. Antologia inspirada no universo da mixtape. São Paulo: LiteraRua, 2021.
RACIONAIS MC’S. Sobrevivendo no inferno. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.



Faço um adendo no que diz respeito ao espaço e a quem de fato pertence. Sou monitor de capoeira e ao longo dos anos percebi que os maiores nomes que representam a arte são Mestre Camisa, Mestre Peixinho e Mestre Boneco, que são os "donos" dos três maiores grupos de Capoeira do mundo. O 'Abadá, Muzenza e Capoeira Brasil'. Adivinha a cor dos três? rs
ResponderExcluirAbçs