O conceito de negritude foi criado no final dos anos 1930 pelos escritores Aimé Césaire (1913-2008), da Martinica, Léon-Gontran Damas (1912-1978), da Guiana Francesa, e Léopold Sédar Senghor (1906-2001), do Senegal. Os três se conheceram na França, onde realizavam seus estudos. Desse encontro, surgiu uma corrente literária que buscava valorizar a cultura negra das populações africanas e afrodescendentes, opondo-se à imagem colonialista e pejorativa associada aos negros.
O termo surge, portanto, num contexto diaspórico, fora do continente africano. Trata-se de uma construção teórica e artística em torno de corporeidades, cosmologias, práticas e pensares negros.
E ainda, vale ressaltar que a negritude não é essencializada por esses autores. Ou seja, para eles não existe um “ser negro” que anteceda a existência das pessoas negras. Segundo Césaire, a negritude é uma resposta de entes históricos à história, e surge com a Revolução Haitiana.
A Negritude no Brasil
Segundo a teórica pensadora Ligia Ferreira (2006), o termo “negridade” já era usado por autores ligados à Frente Negra Brasileira em 1931. O sentimento de pertencimento a uma cultura negra no Brasil antecede, portanto, a internacionalização do conceito afro-antilhano de negritude. Antes da fundação da FNB, jornalistas e pensadores negros brasileiros divulgavam suas ideias em periódicos voltados aos “interesses dos homens de cor”, como O Clarim d’ Alvorada, criado em São Paulo em 1924.
Na década de 1940, a noção de negritude, já internacionalizada, desponta em movimentos como o Teatro Experimental do Negro (TEN). Fundado por Abdias Nascimento (1914-2011) em 1944, no Rio de Janeiro, o TEN busca denunciar a segregação racial no teatro brasileiro e recuperar a herança cultural africana.
Nos anos 1950, a noção de negritude ganhou corpo também na literatura, por meio das poéticas de escritores como Oswaldo de Camargo (1936) e Carlos de Assunção (1927).
No campo da música, a cantora lírica, compositora e pesquisadora Elsie Houston (1902-1943) leva pela primeira vez para a música erudita elementos musicais oriundos de religiões de matrizes africanas.
Houston, filha de pai estadunidense e mãe brasileira, aperfeiçoa seus estudos de canto em Paris, onde se casa em 1927 com o poeta Benjamim Péret. Circula entre as vanguardas literárias francesas, especialmente o grupo surrealista de André Breton, que julgava Césaire o maior poeta de seu tempo. Entre 1929 e 1931, Houston e Péret moram no Brasil. Viajam pelo Norte e Nordeste do país, onde ela realiza importante pesquisa sobre cultos religiosos afro-brasileiros. Os cantos coletados foram reunidos no livro Chants populares du Brésil (Cantos populares do Brasil), lançado na França em 1930, e incorporados a suas performances e gravações. De volta à Europa, leva para suas apresentações referências a lugares culturais de experiências afro-brasileiras. Migrou para Nova York em 1937, onde comete um suposto suicídio em 1943. Mas ainda que não tenha incorporado a ideia de negritude em seu discurso, Houston desempenha um papel fundamental e inovador, ao levar aos palcos e discos certo lugar de pertencimento negro e afro-brasileiro.
A negritude musical dos anos 1940
Em 1942, é criada no Rio de Janeiro a Orquestra Afro-Brasileira de Abigail Moura (1904-1970), dedicada à música brasileira de matrizes africanas. Misturando instrumentos de sopro, vozes (coro e solistas) e percussão afro-brasileira, a OAB busca difundir a arte negra por meio de concertos e emissões radiofônicas. A OAB leva para o campo da orquestração o que Elsie Houston havia feito no cancioneiro. Sob a batuta de Abigail Moura, também grava dois discos.
Os anos 1940 também foram marcados pela emergência de Dorival Caymmi (1914-2008), artista que migra nos anos 1930 para o Rio de Janeiro, levando para a música gravada referências importantes do universo afro-baiano. Seu samba “O que é que a baiana tem?”, gravado por Carmen Miranda (1909-1955) e o Grupo Bando da Lua em 1940, descreve uma mulher ligada ao universo afro-baiano, com seu torço (turbante) de seda, seu pano da costa (xale ritual do candomblé), sua bata rendada etc. Em “A preta do acarajé”, Caymmi reproduz o cântico de uma vendedora que oferece iguarias afro-baianas. Associado a Oyá (orixá do universo yorubantu, mais conhecida como Iansã), o acarajé só pode ser vendido pelas filhas dessa entidade. Caymmi também inaugura o gênero da canção praieira, igualmente ligado a um universo cosmológico negro-africano e afro-diaspórico, com referências a Iemanjá e a pescadores que, via de regra, seriam negros ou mestiços.
Clementina de Jesus e a emergência da vocalidade negra na fonografia
Em 1966, aos 65 anos, a cantora carioca Clementina de Jesus (1902-1987) lança seu primeiro disco-solo, levando para a música gravada um repertório afro-carioca ligado ao samba, jongo e curimba. A força da vocalidade negra que ela inaugura na indústria fonográfica pode ser escutada em gravações como “Cangoma me chamou”, cântico de domínio público que faz referência ao anúncio da abolição da escravidão.
“Tava durumindo, Cangoma me chamou/
Disse levanta povo, cativeiro já acabou”
(DE JESUS, 1966)
Importante ressaltar a centralidade do tambor (cangoma, derivado de ngoma), tanto no discurso verbal quanto na rítmica da canção. No mesmo ano do lançamento do álbum Clementina de Jesus, Baden Powell (1937-2000) e Vinicius de Moraes (1913-1980) gravam Os afro-sambas, com canções que fazem referências ao candomblé.
Vale lembrar que todas essas experiências, levadas para o disco e para o palco a partir dos anos 1930, já são vivenciadas desde o final do século XIX nas práticas musicais das comunidades afro-brasileiras, a exemplo das rodas de choro e de samba.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
MOURA, Abigail. Orquestra Afro-Brasileira. Projeto integrado à exposição Negras Memórias, Memórias de Negros. São Paulo: Atração Fonográfica, 2003. CD + Livreto (32 páginas).
COELHO, Heron (org.). Rainha Quelé: Clementina de Jesus. Valença: Editora Valença S. A., 2001.
DORIVANDO Saravá. O preto que virou mar. Direção: De Henrique Dantas. Documentário. Brasil, 2020, 88 min.
HOUSTON, Elsie. A feminilidade do Canto. Projeto integrado à exposição Negras Memórias, Memórias de Negros. São Paulo: Atração
Fonográfica, 2003. CD + Livreto (32 páginas).



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