Denilson Baniwa, artista visual, publicitário e defensor dos direitos indígenas, busca através da sua origem indígena, de suas práticas de assimilação de conhecimento de outros povos, características marcantes dos povos originários Baniwa, e ainda, como a sua relação com o mundo acadêmico, pode devorar a Cultura Ocidental a partir do pensamento de Mário de Andrade, Oswaldo de Andrade e outros em relação a Antropofagia Baniwa.
Segundo Denilson, o mundo Baniwa e as batalhas entre os povos originários, servem para desenvolver uma nova interpretação do Kunhambebe (líder do povo Tamoio que lutou contra a ocupação portuguesa e contra os indígenas aliados a França). Ou seja, o artista visual acredita que sem a interferência do colonizador português e a vasta produção acadêmica do dominador é possível fazer uma Reantropofagia da chegada dos europeus à América Portuguesa (Brasil).
“A história é construída por criações de mitos e heróis nacionais que são símbolos de um país que apaga suas diversidades. É mais fácil dominar quando o povo tem somente uma única identidade. Para estes fake-heróis são levantados monumentos e impressos retratos em livros escolares que ensinam que devemos ser gratos a eles que fizeram um país livre de selvageria e paganismo. As datas comemorativas reforçam a importância desses mártires e heróis que 'lutaram e deram a vida pelo Brasil'.
Assim, seguindo os conceitos dos antigos Baniwa, dos Tupinambá, um simples pedaço de osso do inimigo indígena, do português ou francês, além de servir como uma lembrança daquela batalha, também é uma forma de registar o quão aquele indivíduo era forte. Diferenciando assim, daquilo que foi disseminado durante séculos, sobre a cultura indígena e a Antropofagia praticada de acordo com a interpretação Ocidental, onde o indígena devorava o seu inimigo para saciar a fome ou para a realização de sacrifícios apenas. No entanto, as batalhas entre os povos originários e os europeus, a resistência de Kunhambebe ao invasor não está vinculada apenas na instância física, mas é também numa vigorosa batalha simbólica, e ainda, serve para expor um legado, um vestígio histórico material para as próximas gerações, seja para os Baniwa, para as outras nações indígenas, e até para a sociedade acadêmica e brasileira como um todo.
Com isso, a Reantropofagia é voltar a uma espécie de ritual Baniwa, de que é possível retirar partes ou pensamentos das interpretações eurocêntricas, para construir a sua própria narrativa e discurso.
Logo, Denilson Baniwa através do seu filme Tamuia (vem do tupi e significa "avós" ou "os mais velhos"), expõe no excerto da carta de Kunhambebe ao seu filho, o quanto é possível entender que nem tudo está ligado a experiência tátil, aquilo que se pode tocar quando está vivo, mas sim ao pensamento sobre aquela vivência.
"Já tentaram me calar muitas vezes, de tantas maneiras que não consigo mais diferenciar o que é físico ou psicológico.
Já tentaram me silenciar várias vezes, nem sei se foi antes ou depois que os alienígenas (europeus - franceses e portugueses) chegaram nesse mundo."
Ou seja, analisando o excerto da carta de Kunhambebe ao seu filho, é possível compreender a diferença entre a morte eurocêntrica que representa o fim, para a morte no mundo Baniwa que é apenas um processo de transição. Pois, a morte não vai apagar aquilo que foi produzido, enquanto o indivíduo esteve vivo. Seja desde uma simples ferramenta construída, uma arte pintada a um pensamento/ensinamento desenvolvido. Por conseguinte, é possível corroborar essa ideia quando utilizamos a iconografia de Jean-Baptiste Debret para compreender a escravidão urbana desenvolvida nas principais cidades brasileiras, ou os textos de Machado de Assis, que não está mais aqui, porém consegue se comunicar com o mundo atual através da sua obra.
Com isso é de extrema importância buscar leitura/conhecimento em autores, cineastas e artistas visuais não só naqueles já consagrados, mas também naqueles que dialogam com o mundo atual, para assim nos permitir refletir, e consequentemente assimilar aquilo que foge do sendo comum. Pois, assim é possível fazer a sua própria Reantropofagia diariamente.
FONTES BIBLIOGRÁFICA
ANDRADE, Oswald de. Manifesto Antropófago. Revista de Antropofagia, São Paulo, ano 1, n. 1, maio 1928.
ANDRADE, Mário de. Macunaíma: o herói sem nenhum caráter. 30. ed. Rio de Janeiro: Livraria Agir Editora, 1993.
ICONOGRAFIA
Mártires indígenas, 2020. Denilson Baniwa
Praça Quinze, com o chafariz, século XIX, retratada por Jean-Baptiste Debret


Nenhum comentário:
Postar um comentário